27/01/2020 ~ 06:12
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Morre Sue Lyon, a Lolita de Stanley Kubrick

Sue Lyon, que aos 14 anos deu vida a Lolita no filme homônimo de 1962 de Stanley Kubrick, morreu na noite da última quinta-feira aos 73 anos em Los Angeles (Estados Unidos). A causa da morte não foi divulgada, mas a saúde da atriz vinha piorando nos últimos anos, como revelou seu amigo Phil Syracopoulos. Embora seu papel mais conhecido seja o de Lolita, ela esteve na ativa desde 1959, quando estreou na série The Loretta Young Show (na qual Kubrick a descobriu), até 1980, com Alligator – O Jacaré Gigante.

Não demorou para que aquela imagem de uma adolescente de biquíni com óculos escuros em forma de corações, na beira de uma piscina e chupando pirulito (o cartaz do filme, de Bert Stern, imagem que não aparecia no longa), ou deixando-se pintar as unhas dos pés por um transtornado Humbert Humbert —encarnado por James Mason—, marcasse o inconsciente de uma geração de cinéfilos, que se lembrarão de como o pedófilo Humbert pronunciava com pausas seu nome: “Lo-Li-Ta”. Seu grande papel veio após um casting exaustivo, do qual mais de 800 atrizes participaram. O autor do romance original, Vladimir Nabokov, considerava que ela era a única que podia interpretar a jovem na telona. “A ninfa perfeita”, foi o apelativo que o escritor usou para se referir a ela, embora dizendo que também teria gostado se a personagem fosse interpretada pela francesa Catherine Demongeot. Stanley Kubrick evitou problemas com a censura ao escolher uma atriz com mais idade (14 anos, embora na tela fosse dito que Lolita tinha 15) que a da ninfeta do livro (12).

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Para Suellyn Lyon, foi o princípio e o fim, a virtude de encontrar um papel que a lançaria ao estrelato e interpretá-lo à perfeição, e a condenação de que nenhum espectador a esqueceria, por mais que crescesse na frente e atrás das câmeras. Nascida em Davenport (Iowa), Lyon começou a atuar ainda criança. Caçula de cinco filhos, seu pai morreu quando ela tinha apenas 10 meses. Com a mudança da família para Los Angeles, Lyon trabalhou como modelo para catálogos da rede de lojas J. C. Penney e apareceu em alguns comerciais na TV. Antes de Lolita, só tinha participado de produções para a telinha, como a série Dennis the Menace e a citada The Loretta Young Show.

Depois de sua primeira incursão no cinema, que lhe valeu o Globo de Ouro de 1963 na categoria “Atriz revelação”, trabalhou em The Night of The Iguana (1964), sob a direção de John Houston. Naquele mesmo ano se casou, numa breve união, com o roteirista Hampton Fancher III. No cinema ela não se deu muito melhor, com trabalhos em Sete Mulheres (1966), de Ford; Um Magnífico Farsante (1967), de Irvin Kershner; e o Tony Rome (1967), com Frank Sinatra. Warren Beatty quase a escolheu para estrelar com ele Bonnie e Clyde, mas se decidiu por Faye Dunaway, enquanto Lyon se casava com o fotógrafo afro-americano Roland Harrison em 1971. Desse casamento nasceu sua filha, Nona, em Los Angeles, antes do divórcio do casal, em 1972. Lyon atribuía alguns de seus comportamentos mais erráticos ao fato de ser maníaco-depressiva, condição tratada com lítio.

Um bom exemplo é seu terceiro casamento, que em 1973 a uniu com um detento de uma prisão de Denver, Gary Adamson, condenado por roubo e assassinato. Lyon conseguiu que a pena dele fosse reduzida, trabalhou como garçonete perto da penitenciária e se divorciou em 1974, quando Adamson voltou a roubar. Ela se casaria outras duas vezes.

Lyon não conseguiu melhores papéis no cinema nem na TV. Sua carreira artística acabou em 1980 com Alligator – O Jacaré Gigante, com Robert Forster, e ela tornou pública a sua retirada em 1986. Durante muito tempo, a atriz renegou Lolita. Em 1997, quando estreou a nova versão de Adrian Lynne, ela disse à Reuters: “Estou horrorizada com a ideia de que querem ressuscitar o filme que causou minha destruição como pessoa”.

Fonte: EL País – Brasil

O que aconteceu para que a Universal decidisse retirar ‘Cats’ da disputa pelo Oscar?

Tudo o que podia dar errado em Cats ficou ainda pior. Ao contrário de seus protagonistas felinos, o musical dirigido pelo inglês Tom Hooper parece que não terá sete vidas. Terá no máximo uma, e tão pobre que sua própria produtora, a Universal, decidiu escondê-la: Cats foi retirado da disputa pelo Oscar.

Nos primeiros seis dias de exibição, ‘Cats’ arrecadou apenas 13,5 milhões de euros, o que não é muito, considerando que custou 85,71 milhões

O filme foi alvo de uma crítica e um público que, de modo geral, não conseguiram entender nada dessa competição entre gatos de rua para serem os escolhidos e alcançarem a vida eterna felina. Nem sequer Beautiful Ghosts, a única música original (as demais foram escritas por Andrew Lloyd Webber na versão teatral, sendo Memory a canção principal) concorrerá à estatueta dourada, já que não passou na pré-seleção, uma decepção inicial que parecia anunciar que o filme estava condenado ao desastre.

A apresentação do trailer na Comic Con de San Diego (a maior convenção internacional de quadrinhos dos Estados Unidos), no verão boreal passado, revolucionou as redes sociais (e não no sentido positivo). Estes são alguns dos tuítes onde aqueles que assistiram às breves imagens do filme mostravam seu desconcerto: “Não sei como conseguiram, mas vemos os personagens de Cats mais nus do que se estivessem realmente nus, e isso é diabolicamente estranho”; “Acabo de ver o trailer de Cats, e agora como faço para esquecer que o vi?”; “Estou morrendo de rir. Pedi à minha filha de oito anos que visse o trailer para saber sua opinião, e ela saiu correndo quando o primeiro gato apareceu. Literalmente gritou ‘Não!’ e se afastou”; “Todos os gatos de Cats parecem presos na metade de sua transformação de humano a felino”; “Os gatos são diminutos. Nenhum dos trabalhadores deste filme sabia qual o tamanho de um gato?”.

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Os efeitos especiais que transformam em felinos Taylor Swift, Judi Dench, Jennifer Hudson, Idris Elba, James Corden e parte do elenco já pressagiavam que o filme se movia perigosamente entre o risível e o repulsivo. Ninguém era capaz de entender, nem na época nem agora, por que há gatas com peitos e outras que não os têm. E por que alguns personagens estão vestidos e outros não. Além disso, os sensuais movimentos de dança desses felinos antropomórficos criam uma estranha sensação de desconforto no espectador. John Anderson, crítico do The Wall Street Journal, descreveu assim o longa-metragem: “Artisticamente, é uma bola de pelo. Não há uma história para contar, a música de Webber é esquecida de imediato e, como um gato que se detém numa porta aberta, ele leva uma eternidade para nos levar aonde quer chegar”.

Nos primeiros seis dias de exibição, o filme arrecadou apenas 13,5 milhões de euros (cerca de 61 milhões de reais), o que não é muito, considerando que custou 85,71 milhões de euros (385,7 milhões de reais). As cifras mostram que poucos são os que se animaram a ir às salas de cinema para viver essa experiência “desconfortável”, como definem alguns dos que se atreveram a vê-la.

E isso que a Universal teve o trabalho de refazer parte dos efeitos visuais dias antes da estreia. O estúdio decidiu enviar aos cinemas uma nova versão —em teoria, melhorada— após Hooper, que em 2012 se encarregou do musical Os Miseráveis, ter se enfurnado na sala de montagem e só conseguido sair dali na manhã de 16 de dezembro, algumas horas antes da estreia, prevista para aquela noite em Nova York. “Venho trabalhando há 36 horas seguidas para dar os últimos toques, mas muito feliz por estar aqui com tudo terminado”, disse o realizador. Parece que era o único.

Fonte: EL País – Brasil

‘Frozen 2’: Disney se acovarda e renuncia a fazer história

A partir do mesmo momento, lá por 2013, quando o fenômeno Frozen chegou às telas para se tornar um dos maiores sucessos —e mais inesperados— da história do cinema recente, os seguidores do filme começaram a especular e teorizar sobre a suposta homossexualidade de Elsa, a rainha do frio. A prova são os 70 milhões de resultados que o Google dá ao usuário que digita no motor de pesquisa as palavras-chave “Elsa gay”. A ausência de um interesse romântico, a insistência com a massacrante Let it Go como hino gay e a necessidade de uma mudança na clássica heteronormatividade das princesas da Disney foram o caldo de cultura de um debate público que se estendeu veementemente durante anos e cujo fim parecia se esclarecer por ocasião da estreia da segunda parte dessa história. 

Frozen 2 acaba de estrear nos cinemas de muitos países (o lançamento no Brasil acontece em 2 de janeiro) com a intenção não apenas de atender às altíssimas expectativas de bilheteria, mas de lidar com as esperanças da legião de espectadores que espera um passo à frente definitivo e explícito por parte da Disney no que se refere à representação de personagens LGBTQ. Um marco ao qual teremos de esperar, pelo menos, até a terceira parte. 

“Tinha muito claro que Elsa não estava preparada para um relacionamento. Ela é muito tímida. O importante desse filme é que é uma mulher que carrega o peso de um reino sobre os ombros e precisa lidar com um poder extraordinário”, disse Jennifer Lee, codiretora do filme. “Estamos muito orgulhosos de que o filme não gira em torno de romance algum”, acrescentou Idina Menzel, a atriz que dá voz a Elsa na versão original. 

Durante a turnê de promoção de Frozen 2, os responsáveis pela mesma não hesitaram em dissipar qualquer dúvida: não há nada que confirme que Elsa seja lésbica. Embora durante esse tempo tenham ficado “emocionados” com as conversas provocadas e não descartem abordar sua sexualidade em continuações futuras, argumentam que a história de Elsa é a de uma mulher independente que tenta se conhecer. Sem a necessidade, portanto, de qualquer interesse romântico, seja heterossexual ou homossexual. Um fato que, levando em conta a história amorosa das princesas da Disney, já é uma revolução em si. 

Mas entre os fãs mais intransigentes da saga, a sensação é de uma oportunidade perdida. “É claro que ficarei desapontada”, confessa Caroline, uma tuiteira que está ansiosa pela estreia e, com cerca de dois mil seguidores em sua conta (@sobering_stairs), é uma das defensoras mais populares da homossexualidade de Elsa. “Acredito que falo por toda a comunidade LGBT quando digo que estamos sub-representados, e ver um personagem tão icônico quanto Elsa sendo retratada como lésbica mudaria minha vida”, afirma. Kristina, estudante e também figura ativa da comunidade de fãs de Frozen na rede social (@entirehearts), diz que “é triste que não se atrevam a fazê-lo quando a oportunidade está aí e têm o apoio de uma grande massa social”. “Para os jovens, Elsa pode ser tudo o que já não pode ser para mim”, acrescenta Alejandro, um roteirista de 29 anos que comprou seu ingresso para assistir ao filme com semanas de antecedência. “Para mim teria um significado puramente simbólico: ver como um filme assim teria me ajudado a administrar os sentimentos sobre minha sexualidade muito melhor do que como o fiz”.

Ativistas LGBTI são presos em São Petersburgo (Rússia), em 17 de maio de 2019. Nesse país, a nova versão de ‘A Bela e a Fera’, lançada em 2017, sofreu boicotes porque um dos personagens foi considerado homossexual.

A Federação Estatal de Lésbicas, Gays, Trans e Bissexuais (FELGTB) da Espanha considera “muito positivo” o movimento espontâneo que reivindica Elsa como ícone homossexual. Embora considere coerentes as explicações da Disney sobre o arco argumental da protagonista, menciona a relevância que um dos personagens de maior impacto sobre o público pudesse se apresentar como uma mulher lésbica. “Para que as crianças não vissem o lesbianismo como algo negativo, para que se pudesse acabar com o bullying nas salas de aula devido à orientação sexual e para que, no futuro, Elsa pudesse ser uma arma de empoderamento para as futuras adolescentes”, explica ao EL PAÍS Miriam Guijarro, coordenadora do grupo de cultura da FELGTB. Entre os marcos atribuíveis à primeira parte, um dos que tiveram mais manchetes na imprensa foi o fato de meninos de todo o mundo apostarem em usar fantasias de Elsa em público. E, entre eles, filhos de celebridades como Adele ou Charlize Theron.

Como aconteceu com o primeiro filme, aquele que quiser ver acenos à comunidade LGBT em ‘Frozen 2 vai encontrá-los. A jornada de amadurecimento e autoconhecimento de Elsa pode servir como uma metáfora perfeita daquilo que significa sair do armário

Então, o que freia a Disney? A resposta: dinheiro e política. A multinacional do Mickey está mais do que consciente da repercussão social e do efeito econômico que uma representação explícita da homossexualidade de Elsa significaria para seus cofres. Quando a hashtag #GiveElsaAGirlfriend (“dê uma namorada para Elsa”) se tornou viral em 2016, os setores mais conservadores dos Estados Unidos responderam com uma campanha reacionária pela manutenção do clássico príncipe encantado, que reuniu mais de 300.000 assinaturas digitais.

Em 2017, a versão em live-action de A Bela e a Fera também sofreu boicotes em países como Malásia e Rússia, que classificaram de gay o personagem LeFou (interpretado por Josh Gad). O Ministério da Cultura da Rússia discutiu se o filme violava a lei contra a propaganda da homossexualidade. O longa finalmente estreou nos cinemas russos, mas com a classificação de “não recomendado para menores de 16 anos”. 

O total arrecadado pelo primeiro Frozen na Rússia, equivalente a cerca de 140 milhões de reais, pode ajudar a entender o que significaria para a Disney o veto de certos países a um filme de animação por ter uma protagonista lésbica. Estava enganado quem pensava que o segundo longa de animação com maior bilheteira da história (atrás de O Rei Leão) fosse ter força suficiente para lidar com repercussões desse calibre. 

LeFou (Josh Gad), o personagem supostamente gay de ‘A Bela e a Fera’ (2017) que causou polêmica em alguns países onde pertencer à comunidade LGTBI não é aceito.

Na Espanha, a identificação da rainha de Arendelle com a comunidade gay causou uma polêmica política. Alicia Rubio, deputada do Vox na Assembleia de Madri, criticou em 2018 a normalização de “modelos e comportamentos homossexuais” no entretenimento infantil e, especialmente, no filme da Disney: “Se Frozen for lésbica, a menina também vai querer o vestidinho e a amiguinha”. Guijarro considera que suas palavras são a melhor prova do quanto é urgente apostar na inclusão. “A cultura LGBT também é importante para as pessoas que não pertencem a esse coletivo, já que é a principal arma para eliminar estereótipos e preconceitos, e até mesmo para evitar agressões. Se essa cultura nos oferecer mensagens de diversidade e respeito que incorporamos ao nosso imaginário, mensagens de ódio como as de Alicia Rubio terão cada vez menos apelo”, assinala. 

Como aconteceu com o primeiro filme, aquele que quiser ver acenos à comunidade LGBTQ em Frozen 2 vai encontrá-los. A jornada de amadurecimento e autoconhecimento de Elsa pode servir como uma metáfora perfeita daquilo que significa sair do armário, e a trilha sonora inclui canções —como Into the Unknown (“para o desconhecido”) e Show Yourself (“mostre-se”)— que permitem reinterpretar seu significado literal no filme e estabelecê-las como novos hinos de empoderamento. 

Mas entre os fãs cresce a ideia de que a cena que marcará um antes e um depois em suas vidas, o esperado beijo de amor —lésbico— que quebrará o feitiço no reino do gelo heteronormativo, ainda está por acontecer.

Fonte: EL País – Brasil

Cary Grant, o revolucionário: LSD para as donas de casa, e a relação que causou estranheza em Hollywood

Cary Grant em 1950.

Cary Grant (Bristol, Reino Unido 1904 – Iowa, 1986) morreu há exatos 33 anos, num dia 29 de novembro, mas nunca deixamos de falar dele. Como ícone de elegância masculina, costuma aparecer em publicações de moda, e como lenda do cinema não deixa de despertar interesse e motivar discursos nostálgicos sobre os bons tempos em que a relação entre os astros, a câmera e o público era muito menos artificial que hoje em dia.

Mas, talvez para seu pesar, grande parte do interesse que Grant motiva ainda se deve à sua vida privada. Há apenas duas semanas a atriz Dyan Cannon (Washington, EUA, 1937), que foi esposa dele durante três anos, na década de 1960, revelava ter rejeitado uma oferta milionária para escrever um livro contando segredos do seu casamento. A oferta, além disso, partiu de Jackie Kennedy, que na última etapa de sua vida trabalhou como editora de livros e conseguiu inclusive convencer Michael Jackson a escrever suas únicas memórias (Moonwalker), em 1987.

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A vida de Cary Grant, que se casou cinco vezes e teve uma filha (justamente com Cannon, hoje com 62 anos) continua sendo alvo de interesse, mais de três décadas depois de sua morte, por causa do abismo existente entre o personagem que conhecemos das telas – elegante, sedutor, seguro de si e com uma sutil veia cômica – e o homem atormentado, rebelde e afeito a riscos que foi na realidade.

Dois fatos chamam a atenção sobre todos os outros: um é a sua relação com o LSD, substância alucinógena que começou a consumir de modo terapêutico – foi uma controvertida moda entre 1950 e 1965 nos Estados Unidos, e hoje estão ressurgindo os estudos que defendem seu uso em microdoses como antidepressivo – e, segundo ele, salvou-o de uma depressão. A infância de Grant foi muito triste: seu irmão morreu muito jovem de tuberculose, seu pai era alcoólatra, e sua mãe era depressiva. Quando Cary tinha nove anos, seu pai mandou sua mãe para uma instituição de saúde mental e lhe disse que ela tinha morrido. No ano seguinte, casou-se com outra mulher. Só depois dos 30 anos, quando já era um astro do cinema, o ator soube que sua mãe continuava viva numa clínica de saúde mental. Grant teve uma infância tão infeliz que, no começo da carreira, preferiu falseá-la e contar que vinha de uma boa família do teatro inglês.

“Cary era um homem muito discreto”, recordou em 2017 Mark Kidel, diretor do documentário Becoming Cary Grant, nas páginas do The Guardian. “Quase nunca dava entrevistas. E depois que começou a tomar ácido ligou pessoalmente pra a revista Good Housekeeping [histórica publicação feminina norte-americana sobre lar, saúde e cozinha] e anunciou: ‘Quero falar sobre isto ao mundo! Mudou minha vida. Todo mundo deveria experimentar’.” Grant de fato concedeu essa entrevista: na página 64 do número de setembro de 1960, uma das maiores estrelas da tela recomendava a todas as donas de casa norte-americanas que começassem a consumir LSD.

Cary Grant, sua esposa, Dyan Cannon, e sua única filha, Jennifer, em uma imagem de 1966.

Mas o mistério mais duradouro sobre Grant são suas relações pessoais. Muitos se apressaram em afirmar que era homossexual, incluindo o cafetão Scotty Bowers em seu escandaloso livro de memórias Full Service, e o estilista Orry-Kelly, que afirmou ter tido uma relação amorosa com ele quando o ator era jovem e acabava de chegar a Nova York. Kelly também acrescentou que, naquela época, o ator trabalhava como acompanhante sexual para mulheres ricas. Outros negam: “Jamais vi nenhum sinal disso”, afirmou sua ex-esposa Dyan Cannon. A filha de Cary e Dyan, Jennifer, escreveu em 2011 em suas memórias sobre seu pai: “Se meu pai experimentou sexualmente? Não sei. E eu? Experimentei com minha sexualidade? E você? Se a experimentação fizer alguém ser gay, então acho que quase todo mundo é”.

A orientação sexual de Cary Grant será sempre algo exposto a rumores e interpretações pessoais. Ele mesmo sempre manteve que era um homem heterossexual e, frequentemente, gabou-se disso com senso de humor. “Quando era jovem e muito popular, encontrava meninas com os namorados delas, e quando elas diziam algo bonito sobre mim eles soltavam: ‘É, mas ouvi falar que é bicha’”, contou Grant ao The New York Times numa entrevista publicada em 1977. “É ridículo, mas dizem isso de todos nós [os atores]. Mas devo dizer que esse garoto está me fazendo um favor. Primeiro, está expressando suas próprias inseguranças sobre a garota. Segundo, despertou curiosidade nela a meu respeito. Terceiro, provavelmente essa garota acabará na minha cama para comprovar por si mesma. Por outro lado, sei que um casamento é feliz e seguro quando um rapaz chega e me diz: ‘A minha mulher te adora’.”

A Paramount vendeu à imprensa a ideia de que Cary e Randolph eram dois grandes conquistadores que compartilhavam uma casa que chamaram de “salão dos solteiros”. Para reforçar essa ideia, espalharam notícias sobre senhoritas entrando e saindo continuamente do local

Rumores à parte, é incontestável que Grant dinamitou um monte de convencionalismos sobre como deveria viver e se comportar um grande astro da Hollywood dos anos trinta (cujo estrelato se estendeu até os cinquenta). E isso ocorreu especialmente durante os 12 anos em que viveu com Randolph Scott (Virgínia, 1898–Califórnia, 1987), entre 1932 e 1944. Se existe um rumor persistente que Grant era gay, Randolph Scott é universalmente considerado seu suposto namorado.

Os dois eram atores famosos, jovens e bonitos. Cary era o símbolo da elegância britânica; Randolph, o da masculinidade do caubói (protagonizou faroestes famosos, como Os Conquistadores e O Resgate do Bandoleiro). Conheceram-se em 1932 nos estúdios da Paramount, quando Scott rodava Sky Bride (um drama aéreo com roteiro de Joseph L. Mankiewicz) e Grant trabalhava em Tu És Única. Juntos protagonizaram Sábado Alegre, onde lutavam pelo amor de uma mulher, Nancy Carroll. Logo depois, foram morar juntos numa casa à beira-mar em Santa Monica (Califórnia).

Naquela época os estúdios controlavam cada detalhe da vida de suas estrelas. Que dois artistas da Paramount dividissem casa levantava algumas suspeitas, então a produtora vendeu à imprensa a ideia de que Cary e Randolph eram dois grandes conquistadores que compartilhavam uma casa que chamaram de “salão dos solteiros”. Para reforçar esta ideia, espalharam notícias sobre senhoritas entrando e saindo continuamente do local, e, o melhor de tudo, os dois posaram para uma reportagem fotográfica onde mostravam seu lar.

Vistas hoje, essas imagens parecem alucinantes: numa das eras mais repressivas da história norte-americana, Cary e Randolph posam em sua casa… como se fossem um casal romântico. Algo que obviamente não era a intenção então, e que somente o tempo e nosso olhar, diferente hoje do que era há oitenta anos, criou. Mas a releitura contemporânea das imagens é impactante e inegável: Cary e Randolph jantando à luz de velas. Cary e Randolph posando com um poodle. Cary e Randolph cozinhando e lavando os pratos. Cary tocando piano enquanto Randolph lê uma partitura para ele. Cary e Randolph jogando bola em trajes de banho. Cary e Randolph fazendo ginástica juntos. Comprove você mesmo:

Cary Grant, de pé, e Randolph Scott posam na casa que compartilharam em Santa Monica.
Cary Grant, sentado, e Randolph Scott posam na sala da casa que compartilharam durante 12 anos em Santa Monica.
Cary Grant e Randolph Scott posam no jardim de sua casa em Santa Monica.
Cary Grant e Randolph Scott jantam na sala de sua casa em Santa Monica.
Cary Grant e Randolph Scott.
Cary Grant e Randolph Scott fazem ginástica juntos.

Os dois se casaram várias vezes, claro. Em 1934, enquanto morava com Randolph, Cary se casou com uma atriz chamada Virginia Cherrill. Os rumores eram de que tinha sido exigido pela Paramount (era habitual na era dos estúdios que estes impusessem casamentos por motivos de marketing, e não necessariamente para ocultar uma suposta homossexualidade). O matrimônio durou sete meses: ela alegou que Grant bebia demais, tornava-se abusivo e discutiam sem parar. Ao divorciar-se, ele voltou a morar com Randolph na casa de Santa Monica. Durante esses 12 anos de convivência intermitente, ele ainda se casaria com uma rica herdeira, Barbara Hutton, em 1942. Desta vez a união durou um pouco menos de três anos.

Como se fosse pouco, em 1938 Cary Grant protagonizou um clássico do cinema em que popularizou a palavra gay. O termo gay é relativamente novo: ninguém dizia que Cary e Randolph eram gays, porque essa palavra não existia com esse significado naquela época. Chamavam-nos, no máximo, de fags (bichas). Gay em inglês serve para denominar alguém alegre, hedonista, despreocupado. Seu uso para referir-se a um homem homossexual só começou a se popularizar nos países anglo-saxões na década de 1960. Mas quando o escutamos pela primeira vez, com esse uso concreto, foi na boca de Cary Grant.

Um último detalhe transformou seu relacionamento, fosse da natureza que fosse, em algo com uma conexão que parece superar o terrestre: Grant morreu em novembro de 1987, e Scott apenas três meses depois, em janeiro de 1988

Em Levada da Breca (1938), há uma cena em que Katharine Hepburn rouba a roupa de Grant enquanto este está tomando banho, e ele se vê obrigado a vestir a única coisa que resta no banheiro dela: uma bata de seda com plumas. A estampa não destoaria hoje num desfile do desenhista Palombo Spain, mas, naquela época, tinha apelo cômico: um homem vestido de mulher era algo muito engraçado de se ver. Ao ser descoberto em trajes femininos, e perguntado pelo motivo, ele responde: “De repente fiquei gay!”. É a primeira vez que a palavra gay, com esse significado, é usada na tela.

Independentemente de se ele era ou não, a atitude de Grant foi incrivelmente livre para aquela época. Se era gay, teve a coragem de ir morar com outro homem numa época em que nenhum ator de Hollywood o faria. Se não era, teve a coragem de brincar com isso e rir dos rumores em episódios como o de Levada da Breca. Se era bissexual, ou se simplesmente teve curiosidade de experimentar, lidou com isso usando uma assombrosa sutileza para não deixar de trabalhar e manter o carinho de milhões de fãs mais conservadores.

Cary e Randolph deixaram de viver juntos em 1945. Diz-se que mantiveram a amizade. E um último detalhe transformou seu relacionamento, fosse da natureza que fosse, em algo com uma conexão que parece superar a esfera terrena: Grant morreu em novembro de 1987, e Scott apenas três meses depois, em janeiro de 1988.

Fonte: EL País – Brasil

Um erro que pode custar milhões: o trailer que revelou a reviravolta final do filme mais esperado deste Natal

Simplesmente Amor (2003) é esse tipo de milagre que raramente se dá no cinema e que toda grande produtora quer conseguir realizar: um filme que volta a ficar na moda todos os anos. Mais especificamente, todos os Natais. É o diamante que dura para sempre. Todo mês de dezembro volta a ser exibido. Todo mês de dezembro volta a dar dinheiro e ser motivo de conversas.

Quando viram o trailer, alguns espectadores descobriram que o título do filme, em alusão à famosa cantiga de Natal do Wham! revelava toda a trama

Que Uma Segunda Chance para Amar (Paul Feig, 2019) queira jogar nessa liga e tomar o lugar de Simplesmente Amor – ou, pelo menos, pegar uma fatia do mesmo bolo – é óbvio desde que anunciou seu elenco, enredo e ambientação. É uma história de amor entre uma jovem mulher com um ar de perdedora e um atraente e misterioso estranho em uma Londres magnificamente decorada com luzes de Natal, e com um humor inglês equilibrado o bastante para ser ao mesmo tempo exótico e não muito enigmático para o espectador estrangeiro. Uma fórmula que já funcionava para o cinema britânico antes de Simplesmente Amor: O Diário de Bridget Jones tinha arrasado em 2001 valendo-se desses ingredientes.

Bem, por enquanto o plano está funcionando pela metade com Uma Segunda Chance para Amar (cujo título original é Last Christmas). A crítica não vem sendo muito amável com o filme (embora também não tenha sido com Simplesmente Amor na época de seu lançamento, e mesmo assim o público o transformou em um clássico do Natal). A bilheteria (já estreou nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Brasil; na Espanha chega nesta sexta-feira) não começou de modo espetacular (pelo menos, cobriu seu orçamento), mas ainda não foi lançado em muitos países.

O trailer em espanhol de ‘Uma Segunda Chance para Amar’, que acumula 2.750.000 reproduções. Tome cuidado com as consequências de pressionar o ‘play’: é fácil deduzir como o filme termina.

Outra coisa que aconteceu com Uma Segunda Chance para Amar é um constrangimento curioso que vai além dos resultados das bilheterias ou da crítica: desde a estreia de seu trailer, em agosto, centenas de comentários feitos na Internet, por exemplo, no próprio vídeo do trailer na versão original no YouTube (que acumula 12 milhões de visualizações), apontam que ele já antecipa a reviravolta final do filme.

Os trailers são uma arma infalível para vender um filme, mas com frequência se tornam uma dor de cabeça. Há exemplos históricos em que a trama era quase totalmente contada

Não, é ainda pior: quando veem o trailer, os espectadores descobrem que o título do filme, em alusão à famosa cantiga de Natal do Wham! (a banda de George Michael e Andrew Ridgeley), revela toda a trama. Não vamos aqui relembrar a letra da canção, para o caso de algum jovem espectador querer ficar sem saber de nada, mas poucas pessoas com mais de 30 anos ignoram o que George Michael cantava logo depois de “Last Christmas …”.

Não, você não lerá aqui detalhes sobre o enredo, mas é muito tentador propor ao leitor que, se quiser, verifique por si mesmo se ao assistir ao trailer é capaz de adivinhar não só a reviravolta final do filme, como também a natureza real da relação entre os dois personagens principais e qual fato do passado os uniu. Recomendamos não olhar os comentários sobre o trailer na versão original se não quiser saber detalhes da trama: há alguns em que os usuários do YouTube comemoram ter descoberto o que acontece e como o filme termina, e compartilham isso com o mundo.

O trailer original de ‘Femme fatale’, de Brian de Palma.

Isso não passaria de uma história engraçada se o diretor do filme, Paul Feig, não tivesse falado do assunto no site digital de entretenimento Digital Spy. “Eu não era a favor de incluir a parte médica [em referência a alguns flashbacks da protagonista em um hospital], porque imaginei que seria muito revelador. Mas quando testaram os trailers, descobriram que essa parte atraía o público. […] É duro dizer isso, mas eu gostaria que não tivessem colocado isso. Vender um filme é tão complicado.” Em declaração ao site Vulture, Feig lamentou amargamente que as pessoas não parem de revelar o suposto final do filme na Internet: “É como se tivéssemos feito Matrix, ou algo assim! Ainda não entendo por que todo mundo decidiu que queria averiguar o final e estragá-lo. Por favor, parem! Vivam uma experiência pura! Divirtam-se!”

Os trailers são uma arma infalível para vender um filme, mas com frequência se tornam uma dor de cabeça. Há exemplos históricos em que a trama era quase totalmente contada. E em alguns casos isso não minimizou em nada seu impacto cultural ou nas bilheterias: alguns foram sucessos igualmente autênticos. Por exemplo, o de Superman 3 (“Este é o trailer? E hoje as pessoas se queixam de que os de agora revelam demais a história”, diz um usuário do YouTube). Ou o de Náufrago, um filme com Tom Hanks abandonado em uma ilha após um acidente de avião, no qual o mostram voltando para casa. Ou o de Codinome Cassius 7, em que Richard Gere procura desesperadamente por um homem … cuja identidade é revelada no minuto 2,03 do trailer. Ou o de Revelação, o suspense com Harrison Ford e Michelle Pfeiffer, um sucesso de bilheteria em que o trailer revela toda a trama, como também na frase promocional do pôster em espanhol (“Parecia o marido perfeito …”).

Aqui vem bem a calhar um dos trailers mais originais e refrescantes do século XXI: o de Femme Fatale (2002), uma joia esquecida de Brian de Palma, cujo anúncio mostrou quase todo o filme, desde os créditos iniciais aos finais, passados em câmera super-rápida. É uma paródia de todos os grandes trailers de Hollywood que arruinaram uma história. No final, um cartaz se dirige ao espectador com um aceno: “Você acabou de ver o novo filme de Brian de Palma. Não entendeu? Tente outra vez.”

Fonte: EL País – Brasil

‘The Crown’: a propaganda se aperfeiçoa

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The Crown deveria ser estudada como um dos exercícios de propaganda mais eficazes do século XXI. Desde que a série de Peter Morgan entrou em 2016 na grade global da Netflix, a figura de Elizabeth II deixou definitivamente para trás a caricatura de látex feita pelo programa satírico Spitting Image para se aprofundar no caminho aberto em 2006 pelo filme A Rainha e seguido em 2013 por The Audience, ambos escritos por Morgan. Sem restrições aparentes em seu desenvolvimento dramático e com um orçamento milionário, The Crown se alimenta tanto dos livros de história quanto das memórias não oficiais e das páginas dos tabloides. Entre uns e outros, a série lucra com a única épica que interessa: a de uma mulher sem carisma aparente a quem o destino reserva um papel para o qual, no fundo, ninguém nasce preparado. Uma mulher agarrada ao seu dever com a mesma determinação que à sua bolsa.

A terceira temporada começa com a chegada ao poder do primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson e seu Governo de esquerda abertamente antimonárquico. O relacionamento de Elizabeth II com Wilson é a melhor trama de episódios marcados por um novo elenco, no qual a atriz Olivia Colman interpreta a monarca madura. Um golpe que vai além do mero efeito publicitário de incluir a ganhadora de um Oscar por interpretar a rainha Ana no filme A Favorita. Para Colman (a grande madrasta de Fleabag), basta sua técnica prodigiosa para construir com as doses certas de ironia a compostura rígida de uma mulher tão afável quanto fria e obstinada. Uma rainha dura com os seus e consigo mesma, que só deixa suas emoções transparecerem diante de seus cavalos puros-sangues e de sua antagônica irmã, a bon vivant e beberrona Margaret, recriada com desenvoltura por Helena Bonham Carter. Assim como nas temporadas anteriores, a caracterização de Philip de Edimburgo é prejudicada pela canastrice, e embora melhore bastante nas mãos do ator Tobias Menzies, continua sendo o mesmo personagem aborrecido. Outra coisa é o agora crescido príncipe Charles (Josh O’Connor), um jovem sensível, angustiado com seu futuro papel, que se olha no espelho do defenestrado duque de Windsor ao estar fatalmente apaixonado por uma mulher que ninguém em sua família vê com bons olhos. Sim, Camilla.

O sucesso de The Crown reside em seu caráter ambíguo. Esse que alterna com humor e distância os conflitos íntimos e familiares para sobrepô-los com alguns episódios da história do Reino Unido. Assim, entre os duelos públicos e privados de uma monarca que não sabe ou não quer chorar, The Crown consegue aquilo que parece ser seu principal objetivo, que a rainha e, mais importante, a instituição que ela representa deixem de ser um mero souvenir de porcelana para ser percebidos como os heroicos sobreviventes de uma espécie em perigo de extinção. E, como no melhor teatro, lembrar que o destino dos reis não é apenas representar um povo, mas também entretê-lo.

Fonte: EL País – Brasil

Os duros últimos dias de Oscar Wilde, em romance gráfico

Um desenho de ‘La Divina Comedia de Oscar Wilde’.

Em 2017, o Governo britânico concedeu o indulto póstumo a Oscar Wilde. Em 1895, o escritor irlandês havia sido condenado a dois anos de trabalhos forçados por sodomia e corrupção da juventude – acusação esta última que o equiparava ao seu admirado Sócrates. “Wilde sempre disse que era um grego nascido em outra época. Além disso, como aconteceu com o filósofo, quando foram detê-lo ele se negou a fugir. Seu amigo Robert Ross havia preparado um barco para que fosse à França, mas ele não aceitou. Alguém como Wilde, com um conceito da vida tão teatral, assumiu que seu personagem tinha que viver esse castigo, embora nunca imaginasse até que ponto seria difícil”, relata Javier de Isusi, ilustrador espanhol que acaba de publicar La Divina Comedia de Oscar Wilde (A divina comédia de Oscar Wilde), um trabalho de mais de 300 páginas ao qual dedicou cinco anos, entre tarefas de pesquisa, roteiro e desenho. Neste sábado, 30 de novembro, a morte do gênio irlandês completa 119 anos.

A origem da publicação remonta à infância do desenhista, quando sofrendo de caxumba, ele recebeu de presente um livro de contos de Wilde. A partir de então, o autor de O Fantasma de Canterville se tornou um de seus autores favoritos. Por mais que lesse, porém, o Isusi adulto era incapaz de reconhecer nas obras de teatro, nos ensaios e no seu único romance aquele escritor que o havia ajudado a suportar melhor a doença. “Tive que esperar até ler De Profundis para entender muitas das coisas de Wilde que sempre me intrigaram. Só então pude fazer a correspondência entre o autor dos contos e o das obras de teatro e de O Retrato de Dorian Gray. No final compreendi que, como qualquer pessoa, em Wilde cabem facetas muito diversas. Do escritor moralista de O Príncipe Feliz e de O Gigante Egoísta até o personagem hedonista ou, se preferirmos o termo com o qual o qualificaram em seu tempo, imoral.”

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Apesar de toda essa riqueza e variedade de matizes, a obra de Wilde é surpreendentemente breve e foi escrita em apenas oito anos. Um corpus literário que, em algumas ocasiões, foi eclipsado pela intensa e escandalosa vida do autor, sobretudo a relativa a esses últimos anos recriados em A divina comédia de Oscar Wilde e nos quais a prisão, a ruína econômica, a censura social e o alcoolismo transformaram o escritor numa sombra do que havia sido.

“Quando foi libertado e chegou a Paris, Oscar Wilde expressou sua vontade de começar uma nova vida. Esse desejo foi justamente a origem do meu trabalho. Ele sempre dissera que sua vida tinha sido como A Divina Comédia, que havia passado pelo inferno que era a prisão e que, nesse momento, estava no purgatório. Por isso, eu me perguntei se durante sua estada em Paris ele vivenciou realmente essa mudança pessoal que lhe permitisse ter um pouco de paraíso.”

Tudo indica que essa transformação nunca ocorreu, mas Isusi aproveita sua privilegiada posição de autor para levar Wilde até o lugar desejado, mesmo que apenas no plano simbólico. Desse modo, numa das cenas mais emotivas do livro, o ilustrador situa o escritor e seu amigo Robert Ross numa carruagem que percorre justamente os Campos Elíseos – nome que os gregos deram ao céu.

“Essa cena é real. Wilde e Ross realizaram esse trajeto parando em todos os cafés que encontravam no caminho para beber absinto. Inventei somente a conversa, embora muitas frases que incluo tenham sido do próprio Wilde. No fundo o livro inteiro é assim, uma mistura de realidade e ficção. Ou melhor, de realidade e mentira, porque acredito que ele teria preferido esse termo, já que o defendeu em seu ensaio ‘A Decadência da Mentira’.”

Esse jogo entre a verdade, a mentira, a ficção e os fatos documentados proposto por Isusi se articula através de brilhantes soluções gráficas e narrativas. Por exemplo: alucinações, passagens oníricas, o diálogo com o espectro de um juveníssimo e insolente Rimbaud e até as entrevistas com diferentes personagens que, como André Gide, Reginald Turner e Lorde Alfred Douglas, conheceram o escritor e dão testemunho sobre isso. “São entrevistas feitas na época atual, mas nas quais os entrevistados aparecem com o aspecto físico que tinham no momento em que conheceram Wilde. Pensei se devia fazê-lo assim ou não, mas percebi que o romance gráfico permite coisas desse tipo, que eram muito frequentes nos primeiros autores dos quadrinhos, como Winsor McCay e seu Little Nemo e que abandonamos pouco a pouco. São recursos que, embora possam não ter sentido se analisados de uma perspectiva racional, funcionam muito bem do ponto de vista narrativa.”

Fonte: EL País – Brasil

Os 100 livros de David Bowie

Chalkie Davies (Getty Images)

A devoção de David Bowie (1948-2016) pelos livros nem sempre foi bem compreendida. Nos anos setenta, quando evitava os aviões, costumava viajar com uma verdadeira livraria: alguns baús que, uma vez abertos, se desdobravam em filas de livros. Muito suspeito para os guardas de fronteira soviéticos, encarregados de inspecionar o expresso que ia de Varsóvia a Moscou. Quando descobriram volumes dedicados a Albert Speer e Joseph Goebbels, pensaram ter detectado algum tipo de espião ou agitador. David se apressou em explicar que estava se documentando para um possível filme. Antinazista, é claro.

É lógico que não existia esse projeto de filme. O interrogado, veterano de viagens acidentadas no Transiberiano, sabia que era melhor não complicar a vida com a KGB: eles dificilmente entenderiam que era um consumidor de ideias que colocava à prova em entrevistas e conversas, um alquimista que transformava a informação em conceitos vendáveis na forma de canções, turnês, vídeos.

O cantor elaborou a lista para a grande exposição que lhe foi dedicada em 2013 pelo Victoria and Albert Museum

Uma voracidade intelectual que não escondia. Pelo contrário: em 2013, quando a exposição David Bowie foi inaugurada no londrino Victoria and Albert Museum, tornou pública uma lista das 100 leituras mais importantes de sua vida. Essa relação, amplamente divulgada por bibliotecas e grupos de fãs, continuou circulando nos anos posteriores. Jan Martí Cervera, do selo Blackie Books, decidiu que havia ali a semente de um vade-mécum e o resultado é El Club de Lectura de David Bowie. Como responsável pela exploração, o jornalista britânico John O’Connell teve o cuidado de explicar cada livro e procurar seu rastro na obra de David; faz isso com rigor e inteligência. Pena que, por ser um livro de referência, se tenha prescindido do índice. Se a intenção era convidar à leitura, faltam informações bibliográficas sobre as edições em português.

Convém insistir que esta é uma lista feita em um momento interessante, justamente quando o protagonista acabava de romper seu silêncio musical com The Next Day. Uma análise do conteúdo da biblioteca de Bowie ajudaria a construir a biografia intelectual do personagem; o que temos aqui se parece mais com um autorretrato cuidado, com ausências significativas (veja abaixo) e presenças embelezadoras.

David Bowie.GETTY IMAGES

Talvez haja um ponto de exibicionismo, mas cheira a verdade, por exemplo, a abundância de títulos cultuados durante os anos sessenta: Pé na Estrada (Kerouac), 1984 (Orwell), Laranja Mecânica (Burgess), Lolita (Nabokov), O Outsider (Colin Wilson) e O Mestre e Margarita (Mikhail Bulgakov) também poderiam estar nas prateleiras de qualquer músico ilustrado da swinging London. De fato, pode-se imaginar a frustração de David ao ver que os Rolling Stones tinham se adiantado ao tomar a fantasia de Bulgakov como inspiração para Simpathy for the Devil. Ele se vingaria e um escaldado Mick Jagger aprenderia a morder a língua na presença de Bowie, rápido na hora de se apropriar de qualquer pista, fosse ela literária, musical, indumentária.

A gravitação em direção à cultura oriental também foi uma característica geracional. Bowie, que na década de sessenta esteve prestes a se tornar (não ria) monge budista, menciona um livro de experiências tibetanas popular na Inglaterra, On Having No Head, de Douglas Harding. Com o tempo, ele se identificou mais com um sibarita ocidental como David Kidd, famoso por Peking Story. É mais complicado imaginá-lo lidando com Yukio Mishima, do qual seleciona O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar.

Embora as breves visitas de Bowie à União Soviética tenham sido decepcionantes, ele estudou suas origens sangrentas no monumental Tragédia de um Povo, de Orlando Figes, e a peste estalinista, como descreveu Arthur Koestler em O Zero e o Infinito ou, com a dor do sofrimento, Journey Into the Whirlwind, de Eugenia Ginzburg. Ao mesmo tempo, mantinha frivolidade suficiente para resgatar Octobriana and the Russian Underground, (1971), uma história em quadrinhos de estética pop com uma opulenta super-heroína; ficou deslumbrado com as possibilidades cinematográficas dessa Barbarella vermelha e o dado picaresco de que, embora fosse comercializada como um produto da dissidência soviética, na verdade era uma montagem do tcheco Peter Sadecky, um cara de pau que roubou o trabalho de seus companheiros.

Os baús cheios de livros com os quais sempre viajava levantaram suspeitas na fronteira soviética

Também é perfeitamente lógica a atração de David pela Alemanha. Embora tenha passado muito mais tempo na amável Suíça, sua estadia na Berlim dividida foi definitiva para sua depuração física e sonora do final dos anos setenta. Lá conseguiu entender como descarrilou a civilização europeia, graças a textos de Alfred Döblin (Berlin Alexanderplatz), Otto Friedrich (Antes do Dilúvio) e de seu amigo Christopher Isherwood (Os Destinos do Sr. Norris). A curiosidade pelo socialismo real subjaz no livro escolhido da autora alemã oriental Christa Wolf, Em Busca de Christa T.

Se a República de Weimar, vista 50 anos depois, parecia uma época excitante, Bowie ficou igualmente fascinado pela boemia de sua cidade de adoção, Nova York. Sua última residência, no Baixo Manhattan, ficava perto dos lugares evocados nos depoimentos do esplendor do Greenwich Village que se destacam entre os abundantes livros nova-iorquinos de Bowie. Como Tales of Beatnik Glory, do cantor, poeta e ativista Ed Sanders. Ou Kafka Was The Rage, de Anatole Broyard. Este último, crítico literário, causou um escândalo típico da era da identidade: depois de sua morte, em 1990, soube-se que havia escondido que era resultado da mestiçagem de Nova Orleans, embora em Nova York se apresentasse como branco.

Esses assuntos despertavam o interesse de Bowie, casado com uma mulher somali, Iman, e pai de Alexandria. A questão racial é discutida em livros autobiográficos como Black Boy, de Richard Wright, ou Da Próxima Vez, o Fogo, de James Baldwin. Três de suas seleções têm origem na fase do chamado Renascimento do Harlem: Passing, de Nella Larsen; The Styreet, de Ann Petry, e Infants of the Spring, de Wallace Thurman.

David Bowie.GETTY IMAGES

No entanto, David não renunciava à sua inglesidade básica. Conhecemos histórias de milionários do rock com melancolia, ingleses exilados que organizam sua ponte aérea particular para dispor de molho Worcestershire e outros condimentos made in England. Bowie preferia outro sustento: era assinante de revistas tão intransferíveis quanto os quadrinhos infantis The Beano, a grosseira Viz ou a satírica Private Eye, que chamam atenção em seu Top 100.

Mais seriamente, os livros ingleses escolhidos por Bowie falam de uma sociedade estratificada, onde a desclassificação é obsessão, assim como a sensação de declínio industrial que J. B. Priestley já captou em English Journey (1934). Tendo como guia A Criação da Juventude, de Jon Savage, aproximou-se de tribos como a brigth youth people, analisada especificamente em Bright Young People: The Rise and Fall of a Generation 1918-1940, de D.J. Taylor, e impiedosamente satirizada por Evelyn Waugh em Vile Bodies. Movimentos literários como os angry young men têm seu lugar com Almas em Leilão, de John Braine, e Billy Liar, de Keith Waterhouse. Saúda também a primeira geração Granta, agrupada pela publicação de Bill Buford em 1983, com obras de Martin Amis (Grana) e Ian McEwan (In Between the Sheets).

Mas não acredite que Bowie era crítico literário. Segundo seu amigo William Boyd, as conversas com ele “não iam além do típico ‘você leu este livro? Você conhece o X? Que tal é?’”. E não esperávamos mais. David manifestava o que os psicólogos chamam de “limiar baixo para o tédio”: podia expressar entusiasmo ilimitado —eu tenho uma anedota pessoal sobre isso— que se diluía rapidamente.

Sabemos que o modus operandi de Bowie passava por violar as distinções entre as artes. Pelo menos até sua aposentadoria das turnês, em 2004, ele estava constantemente à caça de ideias, estilos e experiências que pudesse utilizar em sua obra, na qual o observador atento podia localizar homenagens, confiscos e pastiches. Fez uma arte de sua habilidade para desenvolver personalidades fluidas, tremendamente convincentes (embora tenha tropeçado nos anos noventa). E, como lembra John O’Conell, os livros eram “as ferramentas que usava para navegar pela vida”.

A estante do Duque Branco

Laranja Mecânica (1962), de Anthony Burgess

O Estrangeiro (1942), de Albert Camus

Awopbopaloobop Alopbamboom: The Golden Age of Rock (1969), de Nik Cohn (*)

Inferno (circa 1320), de Dante Alighieri

A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao (2007), de Junot Diaz

O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar (1963), de Yukio Mishima

Selected Poems (2009), de Frank O’Hara (*)

O Julgamento de Kissinger (2001), de Christopher Hitchens

Entrevistas com Francis Bacon (1987), de David Sylvester

Billy Liar (1959), de Keith Waterhouse (*)

Almas em Leilão (1957), de John Braine

On Having No Head (1961), de Douglas Harding (*)

Kafka Was The Rage (1993), de Anatole Broyard (*)

As Cidades da Noite (1963), de John Rechy

Madame Bovary, de Gustave Flaubert

Ilíada (século 8 a.C), de Homero

Enquanto Agonizo (1930), de William Faulkner

Tadanori Yokoo (1997), de Tadanori Yokoo (*)

Berlin Alexanderplatz (1929), de Alfred Döblin

Dentro da Baleia e Outros Ensaios (1940), de George Orwell

Os Destinos do Sr. Norris (1935), de Christopher Isherwood

Halls Dictionary Of Subjects And Symbols In Art (1974), de James A. Hall (*)

David Bomberg (1988), de Richard Cork (*)

Blast (1914), de Wyndham Lewis (*)

Passing (1929), de Nella Larsen (*)

Beyond The Brillo Box (1992), de Arthur C. Danto (*)

The Origin Of Consciousness In The Breakdown Of The Bicameral Mind (1976), de Julian Jaynes (*)

No Castelo do Barba Azul (1971), de George Steiner

Duplo Diabólico (1985), de Peter Ackroyd

O Eu Dividido (1960), de R. D. Laing

Infants Of The Spring (1932), de Wallace Thurman (*)

Em Busca de Christa T. (1968), de Christa Wolf

O Rastro dos Cantos (1987), de Bruce Chatwin

Noites no Circo (1984), de Angela Carter

O Mestre e Margarida (1940), de Mikhail Bulgakov

A Primavera da Srta. Jean Brodie (1961), de Muriel Spark

Lolita (1955), de Vladimir Nabokov

Herzog (1964), de Saul Bellow

Puckoon (1963), de Spike Milligan (*)

Black Boy (1945), de Richard Wright

O Grande Gatsby (1925), de F. Scott Fitzgerald

O Zero e o Infinito (1940), de Arthur Koestler

A Terra Inútil (1922), de T.S. Elliot

McTeague (1899), de Frank Norris (*)

Grana (1984), de Martin Amis

O Outsider (1956), de Colin Wilson

Strange People (1961), de Frank Edwards (*)

English Journey (1934), de J.B. Priestley (*)

Uma Confraria de Tolos (1980), de John Kennedy Toole

O Dia do Gafanhoto (1939), de Nathanael West

1984 (1949), de George Orwell

A Vida e a Época de Little Richard (1984), de Charles White

Mystery Train (1975), de Greil Marcus

The Beano Magazine (quadrinhos, 1938 até hoje) (*)

Raw Magazine (quadrinhos, 1986-1991) (*)

Ruído Branco (1985), de Don DeLillo

Sweet Soul Music: Rhythm And Blues And The Southern Dream Of Freedom (1986), de Peter Guralnick (*)

Silence: Lectures And Writing (1961), de John Cage (*)

Writers At Work: The Paris Review Interviews (1958), editado por Malcolm Cowley (*)

Octobriana And The Russian Underground (1971), de Peter Sadecky (*)

The Street (1946), de Ann Petry (*)

Garotos Incríveis (1995), de Michael Chabon

Última Saída para o Brooklyn (1964), de Hubert Selby Jr.

A People’s History Of The United States (1980), de Howard Zinn (*)

The Age Of American Unreason (2008), de Susan Jacoby (*)

Metropolitan Life (1978), de Fran Lebowitz (*)

The Coast Of Utopia (2002), de Tom Stoppard (*)

A Ponte (1930), de Hart Crane

All The Emperor’s Horses (1961), de David Kidd (*)

Na Ponta dos Dedos (2002), de Sarah Waters

Poderes Terrenos (1980), de Anthony Burgess

Paralelo 42 (1930), de John Dos Passos

Tales Of Beatnik Glory (1975), de Ed Sanders (*)

O Pintor de Pássaros (1994), de Howard Norman

Nowhere To Run The Story Of Soul Music (1984), de Gerri Hirshey (*)

Antes do Dilúvio (1972), de Otto Friedrich

Personas Sexuais: Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson (1990), de Camille Paglia

The American Way Of Death (1963), de Jessica Mitford

A Sangue Frio (1966), de Truman Capote

O Amante de Lady Chatterley (1930), de D.H. Lawrence

A Criação da Juventude (2007), de Jon Savage

Vile Bodies (1930), de Evelyn Waugh (*)

Nova Técnica de Convencer (1957), de Vance Packard

Da Próxima Vez, o Fogo (1963), de James Baldwin

Viz Magazine (quadrinhos, de 1979 até hoje) (*)

Private Eye (revista satírica, 1961 até hoje) (*)

O Papagaio de Flaubert (1984), de Julian Barnes

Os Cantos de Maldodor (1868), de Comte de Lautréamont

Pé na Estrada (1957), de Jack Kerouac

Zanoni (1842), de Edward Bulwer-Lytton

Dogma e Ritual da Alta Magia (1856), de Eliphas Lévi

Os Evangelhos Gnósticos (1979), de Elaine Pagels

O Leopardo (1958), de Giuseppe Tomasi Di Lampedusa

A Grave For a Dolphin (1956), de Alberto Denti di Pirajno (*)

O Ataque (1996), de Rupert Thomson

In Between the Sheets (1978), de Ian McEwan (*)

Tragédia de um Povo (1996), de Orlando Figes

Journey Into the Whirlwind (1967), de Eugenia Ginzburg (*)

The Sound Of The City: The Rise Of Rock And Roll (1970), de Charlie Gillett (*)

Mr. Wilson’s Cabinet of Wonders (1995), de Lawrence Weschler (*)

As obras assinaladas com (*) não possuem edição brasileira.

Fonte: EL País – Brasil

12 mentiras que o cinema nos impôs e que engolimos sem reclamar

Com frequência se acusa Hollywood de tratar alguns episódios históricos sem muito rigor. A desculpa sempre foi que modificar certos aspectos da história são necessários para que a trama seja divertida para o espectador. Alguns exemplos: não é verdade que os autênticos vikings usassem chifres, explosões ruidosas não são possíveis no espaço, e Pocahontas e John Smith não se apaixonaram perdidamente.

Conversamos com historiadores, cientistas, psicólogos e até com a polícia para desmentir com sua ajuda essas licenças cinematográficas.

Os protagonistas de ‘Star Wars: O Acordar da Força’ (2015) fogem de uma explosão.

É mentira que… as explosões de Star Wars sejam ouvidas no espaço

O que nos contaram. Em Star Wars, saga que George Lucas iniciou em 1977, as explosões espaciais são tão clássicas quanto estrondosas. De fato, os sistemas de áudio dos cinemas atuais as potencializam.

O que realmente acontece. No espaço não há nem oxigênio nem som, por isso é inviável que algo exploda ali – para que haja fogo é necessário o oxigênio – nem que uma colisão produza os sons ensurdecedores ouvidos nos filmes de George Lucas. “Se sairmos da atmosfera da Terra, nada faz barulho. Isto se deve a que o som é uma onda que percebemos com nossos ouvidos, quando faz vibrar o tímpano e nosso cérebro interpreta o sinal. Mas para que isto ocorra, a onda necessita de um meio pelo qual se propagar. As ondas sonoras são ondas de pressão que se propagam pelo ar ou pela água, algo que não existe no espaço”, explica o cientista David Calle, autor de ¿Cuánto Pesan las Nubes? “O som se produz quando um corpo vibra com uma frequência compreendida entre 20 e 20.000 herz e, além disso, existe um meio material onde possa se propagar”, explica o cientista ao EL PAÍS.

– É mentira que… Freddie Mercury tenha ficado sabendo que estava com Aids no show do Live Aid

O que nos contaram. O filme que deu a Rami Malek (Los Angeles, 1981) o Oscar de melhor ator, Bohemian Rhapsody (2018), termina reproduzindo os 20 minutos épicos que o Queen protagonizou no festival Live Aid em 1985. Pouco antes dessa atuação, exibida ao vivo para mais de 70 países, Mercury – interpretado por Malek – descobre que tem Aids e o conta a seus colegas de banda, acrescentando que não quer que o tratem como um doente, e que atuará enquanto seu corpo resistir. Seu carisma sobre o palco e a recente confissão de sua doença fazem da atuação algo lendário.

O que realmente aconteceu. Freddie Mercury descobriu que tinha contraído o HIV em 1987, e não em 1985, como conta o filme para dotar de maior dramatismo a cena final. Ou seja, quando o Queen se apresentou no Live Aid, nem Mercury nem seus colegas sabiam que o cantor estava doente de Aids. Quatro anos depois de contar aos membros da banda, Mercury morria na intimidade do dormitório de sua mansão londrina (que chamou de Garden Lodge).

Freddie Mercury no ‘backstage’ do show Live Aid realizado em Londres, em 13 de julho de1985. À sua esquerda, seu namorado, Jim Hutton.

– É mentira que… as pistolas com silenciador praticamente não façam barulho

O que nos contaram. Em Onde os Fracos Não Têm Vez (2008), Javier Bardem mata suas vítimas com uma escopeta que quase não faz barulho, graças a um silenciador. Este é só um exemplo entre muitos. Nas sagas de James Bond e Missão Impossível, seus protagonistas também se valem deste artefato para acabar com o inimigo de forma discreta.

O que realmente acontece. Uma arma de fogo é ruidosa por mais que tenha um silenciador acoplado. “Se uma pistola emitir um ruído de 10, em uma escala de 1 a 10, uma pistola com silenciador emite um ruído de 6 sobre 10. Não é nada sutil, distingue-se claramente que se trata de um tiro”, afirma ao EL PAÍS um funcionário da loja de armas Shoke, de Madri. Um porta-voz da polícia espanhola, por sua vez, nos confirma que as armas com silenciador não passam despercebidas. “Continuam sendo bastante ruidosas”, comenta.

Javier Bardem interpreta um assassino em serie em ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’ (2008).

– É mentira que… os esquimós vivam em iglus

O que nos contaram. Que os esquimós (ou inuit, como se chamam a si mesmos) vivem em casas de gelo com forma circular, onde se protegem do frio graças à capacidade isolante do gelo.

O que realmente acontece. Ao contrário do que se acredita, os esquimós vivem em cabanas de madeira e usavam os iglus de forma muito pontual. “Em geral, os esquimós usavam os iglus só como moradias provisórias durante suas expedições de caça nas regiões árticas durante o inverno. Não estavam acostumados a habitá-los e preferiam outro tipo de casas. É verdade que, sobretudo no Ártico canadense e no norte do Alasca, foram construídos iglus maiores, que podiam servir como moradias familiares, mas não era o mais comum”, explica ao EL PAÍS o historiador José Soto Chica, doutor pela Universidade de Granada (Espanha).

– É mentira que… os capacetes dos vikings tivessem chifres

O que nos contaram. É difícil imaginar um viking sem chifres. O motivo é que óperas como O Crepúsculo dos Deuses (Wagner, 1876) e filmes como Vicky, o Viking (1974) sempre representaram estes guerreiros, que habitaram o norte da Europa entre 700 e 1100, com capacetes coroados com chifres.

O que realmente aconteceu. Carl Emil Doepler, figurinista das óperas de Wagner, inspirou-se no pintor sueco August Malmström para criar a roupa dos vikings protagonistas destas óperas. Malmström ilustrou o poema épico A Saga de Frithiof retratando os vikings com capacetes com asas, elemento que Doepler reinterpretou transformando-as em chifres, sem basear-se em nenhum dado histórico, e que acabou entrando para o imaginário coletivo como algo inerente aos vikings. “Os trabalhos arqueológicos não permitiram afirmar que os capacetes daqueles guerreiros escandinavos tivessem chifres”, aponta Alfonso López Borgoñoz, ex-presidente da ARP Sociedade para o Avanço do Pensamento Crítico. O único elmo viking completo encontrado até hoje é o Gjermundbu (Noruega) e avaliza a opinião do López Borgoñoz, pois não há nem rastro de que esse gorro desenhado à base de placas de ferro fosse equipado com chifres.

O filme ‘Vicky, o Viking’ (2009) é mais um exemplo de que os vikings sempre são representados com chifres no cinema.

– É mentira que… Anastásia tenha sobrevivido à matança que os bolcheviques perpetraram contra sua família, os Romanov

O que nos contaram. Tanto a animação Anastásia (1998) como o musical homônimo centram-se na vida da filha caçula do czar Nicolau II. A trama conta que Anastásia, nome da filha mais nova dos Romanov, sobreviveu à matança cometida pelos bolcheviques na noite de 16 para 17 de julho de 1918, durante a guerra civil russa. Depois do massacre que acabou com a vida de seus pais e seus quatro irmãos, Anastásia passou alguns anos desaparecida. Nesse tempo, muitas jovens impostoras afirmaram ser Anastásia, até que finalmente a verdadeira se reencontrou com sua avó, a imperatriz Maria Fiodorovna Romanova.

O que realmente aconteceu. Anastásia morreu no mesmo dia que sua família. “É completamente falso que Anastásia tenha sobrevivido. A única verdade é que a jovem morreu junto com o resto dos Romanov”, afirma ao EL PAÍS Fernando Camacho, professor de História na Universidade Autônoma de Madri. Em 1991 foram encontrados os restos do czar Nicolau II, sua esposa Alexandra Fiodorovna e dos seus três filhos. Em 2007, acharam-se os restos dos outros dois filhos. Ao cotejar o DNA mitocondrial de uns e outros, revelou-se que todos coincidiam. Esse exame corroborou que uma das filhas encontradas junto à czarina era Anastásia, e acabou de uma vez por todas com o mito da grande duquesa. “Não há dúvida de que Anastásia Romanova morreu assassinada. A Anastásia que inspirou o musical era uma impostora (possivelmente um pouco perturbada), que conseguiu convencer muita gente, inclusive familiares da princesa. Mas nunca foi reconhecida oficialmente, entre outras coisas porque nem falava russo nem sabia nada da família real”, conta José María Faraldo, professor de História Contemporânea da Universidade Complutense de Madri.

Retrato de Anastásia, a filha caçula do czar russo Nicolau II.

– É mentira que… Pocahontas e John Smith tenham se apaixonado.

O que nos contaram. Pocahontas foi uma nativa norte-americana que nasceu em 1595, filha mais velha do chefe da confederação algonquina da Virgínia, o chefe Powhatan; e a Disney contou sua história em 1995 na animação homônima. No longa, Pocahontas e John Smith se apaixonam, mas as circunstâncias sociais – ela é uma indígena americana, e ele um explorador inglês – não facilitam as coisas. Além disso, devem enfrentar um pai intransigente, o dela, que quer para Pocahontas um casamento de conveniência com outro indígena da tribo, Kocoum, a quem a jovem rechaça categoricamente.

Na animação Anastásia (1998), a filha mais nova do czar Nicolau II sobrevive à matança perpetrada pelos bolcheviques, que acabou com a vida de seus pais e irmãos.

O que realmente aconteceu. Para começar, não se chamava Pocahontas. Seu nome era Matoaka. Para continuar, nos diários de Smith (escritos entre 1607 e 1612) fica claro que Pocahontas e ele nunca se apaixonaram. Ela tinha 10 anos e o chamava de “pai”, porque ele tinha 27. Na verdade, Pocahontas se casou com Kocoum, por quem sim estava apaixonada, e salvou a vida de Smith quando sua tribo o sentenciou à morte – colocou-se no meio justamente antes de cortarem a cabeça do colono. Anos depois, após enviuvar, Pocahontas viajou a Londres, onde voltou a se casar, mas morreu aos 22 anos, em 1617. Desde então, o mito de seu romance com John Smith, alimentado pela Disney, maquiou o genocídio que os colonos perpetraram contra os nativos americanos.

O filme ‘Pocahontas’, da Disney, conta a história de amor entre uma nativa norte-americana, Pocahontas, e um capitão inglês, John Smith.

– É mentira que… Ocorra uma explosão quando se atira uma bituca de cigarro em uma superfície com gasolina

O que nos contaram. Existem inúmeros exemplos no cinema de ação (e inclusive nas comédias) onde ocorrem explosões quando alguém acende um cigarro ou joga uma bituca em uma superfície borrifada de gasolina. Em Zoolander (2001), filme onde Ben Stiler dá vida a um modelo um tanto descerebrado, há uma cena em que o protagonista está fazendo-se de idiota num posto de gasolina com vários colegas e, depois de jogar combustível sobre o carro, alguém acende um cigarro e ocorre uma explosão.

O que realmente acontece. Para que ocorra uma grande explosão, a gasolina precisa de um foco de ignição potente, como uma boa fagulha. A bituca de um cigarro apenas queima, por isso é muito difícil que ao cair ao solo ocorra uma explosão. “As misturas de combustíveis só queimam em condições muito específicas de concentração no ar. Isto quer dizer que não é tão simples que ocorram as grandes explosões que vemos no cinema ao atirar um cigarro no chão. Para que isto ocorra seria preciso algo que queime muito mais”, explica ao EL PAÍS o cientista David Calle.

– É mentira que… a primeira experiência sexual seja idílica.

O que nos contaram. Em Segundas Intenções (1999), Ryan Phillippe interpreta Sebastian Valmont, um jovem libidinoso cujo passatempo favorito é seduzir e levar para a cama todas as mulheres que encontra. Reese Witherspoon é Annette Hargrove, uma estudante sem experiência sexual até que Sebastian cruza seu caminho. Ele consegue que Annette mude de opinião sobre esperar até o casamento, e o casal tem um encontro sexual, o primeiro para ela, onde tudo sai às mil maravilhas.

O que realmente acontece. “A primeira vez costuma ser bastante desastrosa. A inexperiência faz que seja algo atrapalhado (muitos homens nem sequer estão seguros de onde está o buraco) e doloroso para muitas mulheres”, diz a sexóloga Ruth Osset ao EL PAÍS. “Entretanto, nos filmes se mostra como um momento idílico, em que não se sua e não se despenteia nem um cabelo”, observa Ousset. A sexóloga explica também que o clichê cinematográfico de que os homens sempre têm vontade de praticar sexo é falso: “Os homens nem sempre estão dispostos. O cansaço e o estresse a que estamos expostos diariamente causam muito dano e são fatais para a libido. Outra realidade que não se mostra nos filmes é que há homens que têm dificuldades para abrir e colocar o preservativo. Muitos inclusive perdem a ereção tentando”.

– É mentira que… Cleópatra tivesse vestidos luxuosos e joias

O que nos contaram. Em Cleópatra, o filme mais elogiado sobre esta rainha, dirigido em 1963 por Joseph L. Mankiewicz, o figurino da protagonista (Elizabeth Taylor) custou 194.000 dólares naquela época – em valores atualizados pela inflação, seriam 1,6 milhão de dólares (6,78 milhões de reais). O motivo? Taylor ostentou inumeráveis trajes e adornos ao longo das quatro horas de metragem (inicialmente eram seis, mas a produtora pediu a Mankiewicz que cortasse duas). Segundo essa visão, Cleópatra teria sido uma espécie da Madonna helenística, uma estrela do pop sempre rodeada de padrões complexos, decorações extremas e cores extravagantes.

O que realmente aconteceu. Durante muitos séculos, a indumentária do Egito foi muito humilde. “A civilização egípcia era bastante estática, estilisticamente falando. Lá usavam tecidos muito simples, principalmente linho, porque a lã era considerada impura por sua procedência animal, e, embora bordassem e tingissem, faziam-no com sobriedade. Os objetos que vestiam eram túnicas ou panos leves drapeados”, explica Carlos Primo, professor de Sociologia e História da Moda na Escola de Design IADE. É verdade que Cleópatra era de ascendência grega, mas, como observa Primo, nem sequer essas origens sustentam a ideia de que uma soberana egípcia vestisse trajes tão elaborados. “O vestuário da Cleópatra de Liz Taylor é uma mistura de diferentes influências: as representações teatrais e operísticas da personagem no século XIX (desde a de Shakespeare à Aida de Verdi), o vestuário das primeiras bailarinas de dança oriental que triunfaram nos Estados Unidos no começo do século XX e, obviamente, a moda da época. Há citações literais a Dior ou Charles James no figurino do filme, silhuetas trazidas literalmente dos anos cinquenta e sessenta e maquiagens similares às que podiam aparecer na capa da Harper’s Bazaar ou Vogue”, aponta o especialista em moda.

A Cleópatra que Elizabeth Taylor interpretou em 1963 era uma espécie de estrela pop que se vestia de forma luxuosa e extravagante.

– É mentira que… O Titanic fosse impossível de afundar, como diz o famoso filme

O que nos contaram. Em 1997, o diretor James Cameron estreou Titanic, que foi durante 12 anos – de 1997 a 2009 – o filme de maior bilheteira da história. A trama do longa, protagonizado por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, gira em torno de um luxuoso navio, o Titanic, que afunda ao se chocar com um iceberg apesar de ter como principal característica a sua suposta insubmersibilidade. Esse navio existiu, zarpou de Londres com direção a Nova York em 1912 e afundou no meio do Atlântico antes de chegar ao seu destino. No filme de Cameron, faz-se menção em repetidas ocasiões a essa “insumersibilidade” que o diferenciaria das demais embarcações. Logo antes de embarcar no Titanic, a mãe da protagonista (Winslet) comenta: “Então este é o navio que dizem que não tem como afundar”. E o seu futuro genro confirma: “Nem Deus poderia afundá-lo”.

O que realmente acontece. O professor de Sociologia cultural do King’s College de Londres Richard Howells afirma em seu livro The Myth of the Titanic (1999) que a White Star Line, empresa dona do navio, nunca disse que este fosse insubmersível. “Não é verdade que o Titanic fosse visto pelo público como um navio insubmersível. É um mito que surgiu depois do naufrágio para dar um caráter épico à história”, diz o autor. O jornalista Philip Howard, dessa mesma opinião, escreveu em 1981 no The Times que “não há nenhuma prova de que o Titanic fosse considerado insubmersível. A palavra insubmersível começa a aparecer na imprensa um dia depois do afundamento. E isto ocorre para dar grandiloquência ao acidente”.

Em 1997, James Cameron levou ao cinema a história do ‘Titanic’.

– É mentira que… William Wallace herói de ‘Coração Valente’, pintasse o rosto de azul

O que nos contaram. A imagem mais célebre da superprodução histórica Coração Valente (1995), ganhadora de cinco Oscars, é o rosto pintado de azul de seu protagonista William Wallace (interpretado por Mel Gibson). No filme, Gibson dá vida ao herói escocês do século XIV que lidera a batalha pela independência escocesa contra os ingleses. E o faz, assim como os outros homens que lutam ao seu lado, com um look chamativo que passou à história: o rosto camuflado de pintura azul.

O que realmente acontece. Quem realmente pintava o rosto de azul eram os pictos, povo que habitou a Escócia durante a invasão romana, no ano 47 depois de Cristo. “Os pictos eram indígenas que lutaram contra os romanos e pintavam a cara de azul para infundir pavor. Entretanto, os escoceses não pintavam o rosto na Idade Média, quando transcorre a trama de Coração Valente”, observa Miguel Ángel Perfecto, professor de História Contemporânea da Universidade de Salamanca (Espanha) e especialista em história da Escócia. Outra inexatidão histórica que o historiador aponta é que na Idade Média não existiam nem a ideologia nem os movimentos nacionalistas, portanto William Wallace não poderia ser o líder do nacionalismo escocês retratado no filme. “O nacionalismo surgiu com as revoluções burguesas no século XIX. No século XIV, que é a época em que se passa Coração Valente, ainda não existiam”, relativiza Perfecto.

O traço mais característico de William Wallace, protagonista de ‘Coração Valente’ (1995) é sua cara pintada de azul. Mas era esse mesmo o aspecto dos guerreiros escoceses da Idade Média?
O último filme de Amenábar, ‘Enquanto dure a guerra’, conta como foram os inícios da Guerra Civil espanhola, contenda na que Franco teve um papel principal.

Fonte: EL País – Brasil

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