27/01/2020 ~ 06:47

‘The Crown’: a propaganda se aperfeiçoa

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The Crown deveria ser estudada como um dos exercícios de propaganda mais eficazes do século XXI. Desde que a série de Peter Morgan entrou em 2016 na grade global da Netflix, a figura de Elizabeth II deixou definitivamente para trás a caricatura de látex feita pelo programa satírico Spitting Image para se aprofundar no caminho aberto em 2006 pelo filme A Rainha e seguido em 2013 por The Audience, ambos escritos por Morgan. Sem restrições aparentes em seu desenvolvimento dramático e com um orçamento milionário, The Crown se alimenta tanto dos livros de história quanto das memórias não oficiais e das páginas dos tabloides. Entre uns e outros, a série lucra com a única épica que interessa: a de uma mulher sem carisma aparente a quem o destino reserva um papel para o qual, no fundo, ninguém nasce preparado. Uma mulher agarrada ao seu dever com a mesma determinação que à sua bolsa.

A terceira temporada começa com a chegada ao poder do primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson e seu Governo de esquerda abertamente antimonárquico. O relacionamento de Elizabeth II com Wilson é a melhor trama de episódios marcados por um novo elenco, no qual a atriz Olivia Colman interpreta a monarca madura. Um golpe que vai além do mero efeito publicitário de incluir a ganhadora de um Oscar por interpretar a rainha Ana no filme A Favorita. Para Colman (a grande madrasta de Fleabag), basta sua técnica prodigiosa para construir com as doses certas de ironia a compostura rígida de uma mulher tão afável quanto fria e obstinada. Uma rainha dura com os seus e consigo mesma, que só deixa suas emoções transparecerem diante de seus cavalos puros-sangues e de sua antagônica irmã, a bon vivant e beberrona Margaret, recriada com desenvoltura por Helena Bonham Carter. Assim como nas temporadas anteriores, a caracterização de Philip de Edimburgo é prejudicada pela canastrice, e embora melhore bastante nas mãos do ator Tobias Menzies, continua sendo o mesmo personagem aborrecido. Outra coisa é o agora crescido príncipe Charles (Josh O’Connor), um jovem sensível, angustiado com seu futuro papel, que se olha no espelho do defenestrado duque de Windsor ao estar fatalmente apaixonado por uma mulher que ninguém em sua família vê com bons olhos. Sim, Camilla.

O sucesso de The Crown reside em seu caráter ambíguo. Esse que alterna com humor e distância os conflitos íntimos e familiares para sobrepô-los com alguns episódios da história do Reino Unido. Assim, entre os duelos públicos e privados de uma monarca que não sabe ou não quer chorar, The Crown consegue aquilo que parece ser seu principal objetivo, que a rainha e, mais importante, a instituição que ela representa deixem de ser um mero souvenir de porcelana para ser percebidos como os heroicos sobreviventes de uma espécie em perigo de extinção. E, como no melhor teatro, lembrar que o destino dos reis não é apenas representar um povo, mas também entretê-lo.

Fonte: EL País – Brasil

Os duros últimos dias de Oscar Wilde, em romance gráfico

Um desenho de ‘La Divina Comedia de Oscar Wilde’.

Em 2017, o Governo britânico concedeu o indulto póstumo a Oscar Wilde. Em 1895, o escritor irlandês havia sido condenado a dois anos de trabalhos forçados por sodomia e corrupção da juventude – acusação esta última que o equiparava ao seu admirado Sócrates. “Wilde sempre disse que era um grego nascido em outra época. Além disso, como aconteceu com o filósofo, quando foram detê-lo ele se negou a fugir. Seu amigo Robert Ross havia preparado um barco para que fosse à França, mas ele não aceitou. Alguém como Wilde, com um conceito da vida tão teatral, assumiu que seu personagem tinha que viver esse castigo, embora nunca imaginasse até que ponto seria difícil”, relata Javier de Isusi, ilustrador espanhol que acaba de publicar La Divina Comedia de Oscar Wilde (A divina comédia de Oscar Wilde), um trabalho de mais de 300 páginas ao qual dedicou cinco anos, entre tarefas de pesquisa, roteiro e desenho. Neste sábado, 30 de novembro, a morte do gênio irlandês completa 119 anos.

A origem da publicação remonta à infância do desenhista, quando sofrendo de caxumba, ele recebeu de presente um livro de contos de Wilde. A partir de então, o autor de O Fantasma de Canterville se tornou um de seus autores favoritos. Por mais que lesse, porém, o Isusi adulto era incapaz de reconhecer nas obras de teatro, nos ensaios e no seu único romance aquele escritor que o havia ajudado a suportar melhor a doença. “Tive que esperar até ler De Profundis para entender muitas das coisas de Wilde que sempre me intrigaram. Só então pude fazer a correspondência entre o autor dos contos e o das obras de teatro e de O Retrato de Dorian Gray. No final compreendi que, como qualquer pessoa, em Wilde cabem facetas muito diversas. Do escritor moralista de O Príncipe Feliz e de O Gigante Egoísta até o personagem hedonista ou, se preferirmos o termo com o qual o qualificaram em seu tempo, imoral.”

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Apesar de toda essa riqueza e variedade de matizes, a obra de Wilde é surpreendentemente breve e foi escrita em apenas oito anos. Um corpus literário que, em algumas ocasiões, foi eclipsado pela intensa e escandalosa vida do autor, sobretudo a relativa a esses últimos anos recriados em A divina comédia de Oscar Wilde e nos quais a prisão, a ruína econômica, a censura social e o alcoolismo transformaram o escritor numa sombra do que havia sido.

“Quando foi libertado e chegou a Paris, Oscar Wilde expressou sua vontade de começar uma nova vida. Esse desejo foi justamente a origem do meu trabalho. Ele sempre dissera que sua vida tinha sido como A Divina Comédia, que havia passado pelo inferno que era a prisão e que, nesse momento, estava no purgatório. Por isso, eu me perguntei se durante sua estada em Paris ele vivenciou realmente essa mudança pessoal que lhe permitisse ter um pouco de paraíso.”

Tudo indica que essa transformação nunca ocorreu, mas Isusi aproveita sua privilegiada posição de autor para levar Wilde até o lugar desejado, mesmo que apenas no plano simbólico. Desse modo, numa das cenas mais emotivas do livro, o ilustrador situa o escritor e seu amigo Robert Ross numa carruagem que percorre justamente os Campos Elíseos – nome que os gregos deram ao céu.

“Essa cena é real. Wilde e Ross realizaram esse trajeto parando em todos os cafés que encontravam no caminho para beber absinto. Inventei somente a conversa, embora muitas frases que incluo tenham sido do próprio Wilde. No fundo o livro inteiro é assim, uma mistura de realidade e ficção. Ou melhor, de realidade e mentira, porque acredito que ele teria preferido esse termo, já que o defendeu em seu ensaio ‘A Decadência da Mentira’.”

Esse jogo entre a verdade, a mentira, a ficção e os fatos documentados proposto por Isusi se articula através de brilhantes soluções gráficas e narrativas. Por exemplo: alucinações, passagens oníricas, o diálogo com o espectro de um juveníssimo e insolente Rimbaud e até as entrevistas com diferentes personagens que, como André Gide, Reginald Turner e Lorde Alfred Douglas, conheceram o escritor e dão testemunho sobre isso. “São entrevistas feitas na época atual, mas nas quais os entrevistados aparecem com o aspecto físico que tinham no momento em que conheceram Wilde. Pensei se devia fazê-lo assim ou não, mas percebi que o romance gráfico permite coisas desse tipo, que eram muito frequentes nos primeiros autores dos quadrinhos, como Winsor McCay e seu Little Nemo e que abandonamos pouco a pouco. São recursos que, embora possam não ter sentido se analisados de uma perspectiva racional, funcionam muito bem do ponto de vista narrativa.”

Fonte: EL País – Brasil

Os 100 livros de David Bowie

Chalkie Davies (Getty Images)

A devoção de David Bowie (1948-2016) pelos livros nem sempre foi bem compreendida. Nos anos setenta, quando evitava os aviões, costumava viajar com uma verdadeira livraria: alguns baús que, uma vez abertos, se desdobravam em filas de livros. Muito suspeito para os guardas de fronteira soviéticos, encarregados de inspecionar o expresso que ia de Varsóvia a Moscou. Quando descobriram volumes dedicados a Albert Speer e Joseph Goebbels, pensaram ter detectado algum tipo de espião ou agitador. David se apressou em explicar que estava se documentando para um possível filme. Antinazista, é claro.

É lógico que não existia esse projeto de filme. O interrogado, veterano de viagens acidentadas no Transiberiano, sabia que era melhor não complicar a vida com a KGB: eles dificilmente entenderiam que era um consumidor de ideias que colocava à prova em entrevistas e conversas, um alquimista que transformava a informação em conceitos vendáveis na forma de canções, turnês, vídeos.

O cantor elaborou a lista para a grande exposição que lhe foi dedicada em 2013 pelo Victoria and Albert Museum

Uma voracidade intelectual que não escondia. Pelo contrário: em 2013, quando a exposição David Bowie foi inaugurada no londrino Victoria and Albert Museum, tornou pública uma lista das 100 leituras mais importantes de sua vida. Essa relação, amplamente divulgada por bibliotecas e grupos de fãs, continuou circulando nos anos posteriores. Jan Martí Cervera, do selo Blackie Books, decidiu que havia ali a semente de um vade-mécum e o resultado é El Club de Lectura de David Bowie. Como responsável pela exploração, o jornalista britânico John O’Connell teve o cuidado de explicar cada livro e procurar seu rastro na obra de David; faz isso com rigor e inteligência. Pena que, por ser um livro de referência, se tenha prescindido do índice. Se a intenção era convidar à leitura, faltam informações bibliográficas sobre as edições em português.

Convém insistir que esta é uma lista feita em um momento interessante, justamente quando o protagonista acabava de romper seu silêncio musical com The Next Day. Uma análise do conteúdo da biblioteca de Bowie ajudaria a construir a biografia intelectual do personagem; o que temos aqui se parece mais com um autorretrato cuidado, com ausências significativas (veja abaixo) e presenças embelezadoras.

David Bowie.GETTY IMAGES

Talvez haja um ponto de exibicionismo, mas cheira a verdade, por exemplo, a abundância de títulos cultuados durante os anos sessenta: Pé na Estrada (Kerouac), 1984 (Orwell), Laranja Mecânica (Burgess), Lolita (Nabokov), O Outsider (Colin Wilson) e O Mestre e Margarita (Mikhail Bulgakov) também poderiam estar nas prateleiras de qualquer músico ilustrado da swinging London. De fato, pode-se imaginar a frustração de David ao ver que os Rolling Stones tinham se adiantado ao tomar a fantasia de Bulgakov como inspiração para Simpathy for the Devil. Ele se vingaria e um escaldado Mick Jagger aprenderia a morder a língua na presença de Bowie, rápido na hora de se apropriar de qualquer pista, fosse ela literária, musical, indumentária.

A gravitação em direção à cultura oriental também foi uma característica geracional. Bowie, que na década de sessenta esteve prestes a se tornar (não ria) monge budista, menciona um livro de experiências tibetanas popular na Inglaterra, On Having No Head, de Douglas Harding. Com o tempo, ele se identificou mais com um sibarita ocidental como David Kidd, famoso por Peking Story. É mais complicado imaginá-lo lidando com Yukio Mishima, do qual seleciona O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar.

Embora as breves visitas de Bowie à União Soviética tenham sido decepcionantes, ele estudou suas origens sangrentas no monumental Tragédia de um Povo, de Orlando Figes, e a peste estalinista, como descreveu Arthur Koestler em O Zero e o Infinito ou, com a dor do sofrimento, Journey Into the Whirlwind, de Eugenia Ginzburg. Ao mesmo tempo, mantinha frivolidade suficiente para resgatar Octobriana and the Russian Underground, (1971), uma história em quadrinhos de estética pop com uma opulenta super-heroína; ficou deslumbrado com as possibilidades cinematográficas dessa Barbarella vermelha e o dado picaresco de que, embora fosse comercializada como um produto da dissidência soviética, na verdade era uma montagem do tcheco Peter Sadecky, um cara de pau que roubou o trabalho de seus companheiros.

Os baús cheios de livros com os quais sempre viajava levantaram suspeitas na fronteira soviética

Também é perfeitamente lógica a atração de David pela Alemanha. Embora tenha passado muito mais tempo na amável Suíça, sua estadia na Berlim dividida foi definitiva para sua depuração física e sonora do final dos anos setenta. Lá conseguiu entender como descarrilou a civilização europeia, graças a textos de Alfred Döblin (Berlin Alexanderplatz), Otto Friedrich (Antes do Dilúvio) e de seu amigo Christopher Isherwood (Os Destinos do Sr. Norris). A curiosidade pelo socialismo real subjaz no livro escolhido da autora alemã oriental Christa Wolf, Em Busca de Christa T.

Se a República de Weimar, vista 50 anos depois, parecia uma época excitante, Bowie ficou igualmente fascinado pela boemia de sua cidade de adoção, Nova York. Sua última residência, no Baixo Manhattan, ficava perto dos lugares evocados nos depoimentos do esplendor do Greenwich Village que se destacam entre os abundantes livros nova-iorquinos de Bowie. Como Tales of Beatnik Glory, do cantor, poeta e ativista Ed Sanders. Ou Kafka Was The Rage, de Anatole Broyard. Este último, crítico literário, causou um escândalo típico da era da identidade: depois de sua morte, em 1990, soube-se que havia escondido que era resultado da mestiçagem de Nova Orleans, embora em Nova York se apresentasse como branco.

Esses assuntos despertavam o interesse de Bowie, casado com uma mulher somali, Iman, e pai de Alexandria. A questão racial é discutida em livros autobiográficos como Black Boy, de Richard Wright, ou Da Próxima Vez, o Fogo, de James Baldwin. Três de suas seleções têm origem na fase do chamado Renascimento do Harlem: Passing, de Nella Larsen; The Styreet, de Ann Petry, e Infants of the Spring, de Wallace Thurman.

David Bowie.GETTY IMAGES

No entanto, David não renunciava à sua inglesidade básica. Conhecemos histórias de milionários do rock com melancolia, ingleses exilados que organizam sua ponte aérea particular para dispor de molho Worcestershire e outros condimentos made in England. Bowie preferia outro sustento: era assinante de revistas tão intransferíveis quanto os quadrinhos infantis The Beano, a grosseira Viz ou a satírica Private Eye, que chamam atenção em seu Top 100.

Mais seriamente, os livros ingleses escolhidos por Bowie falam de uma sociedade estratificada, onde a desclassificação é obsessão, assim como a sensação de declínio industrial que J. B. Priestley já captou em English Journey (1934). Tendo como guia A Criação da Juventude, de Jon Savage, aproximou-se de tribos como a brigth youth people, analisada especificamente em Bright Young People: The Rise and Fall of a Generation 1918-1940, de D.J. Taylor, e impiedosamente satirizada por Evelyn Waugh em Vile Bodies. Movimentos literários como os angry young men têm seu lugar com Almas em Leilão, de John Braine, e Billy Liar, de Keith Waterhouse. Saúda também a primeira geração Granta, agrupada pela publicação de Bill Buford em 1983, com obras de Martin Amis (Grana) e Ian McEwan (In Between the Sheets).

Mas não acredite que Bowie era crítico literário. Segundo seu amigo William Boyd, as conversas com ele “não iam além do típico ‘você leu este livro? Você conhece o X? Que tal é?’”. E não esperávamos mais. David manifestava o que os psicólogos chamam de “limiar baixo para o tédio”: podia expressar entusiasmo ilimitado —eu tenho uma anedota pessoal sobre isso— que se diluía rapidamente.

Sabemos que o modus operandi de Bowie passava por violar as distinções entre as artes. Pelo menos até sua aposentadoria das turnês, em 2004, ele estava constantemente à caça de ideias, estilos e experiências que pudesse utilizar em sua obra, na qual o observador atento podia localizar homenagens, confiscos e pastiches. Fez uma arte de sua habilidade para desenvolver personalidades fluidas, tremendamente convincentes (embora tenha tropeçado nos anos noventa). E, como lembra John O’Conell, os livros eram “as ferramentas que usava para navegar pela vida”.

A estante do Duque Branco

Laranja Mecânica (1962), de Anthony Burgess

O Estrangeiro (1942), de Albert Camus

Awopbopaloobop Alopbamboom: The Golden Age of Rock (1969), de Nik Cohn (*)

Inferno (circa 1320), de Dante Alighieri

A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao (2007), de Junot Diaz

O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar (1963), de Yukio Mishima

Selected Poems (2009), de Frank O’Hara (*)

O Julgamento de Kissinger (2001), de Christopher Hitchens

Entrevistas com Francis Bacon (1987), de David Sylvester

Billy Liar (1959), de Keith Waterhouse (*)

Almas em Leilão (1957), de John Braine

On Having No Head (1961), de Douglas Harding (*)

Kafka Was The Rage (1993), de Anatole Broyard (*)

As Cidades da Noite (1963), de John Rechy

Madame Bovary, de Gustave Flaubert

Ilíada (século 8 a.C), de Homero

Enquanto Agonizo (1930), de William Faulkner

Tadanori Yokoo (1997), de Tadanori Yokoo (*)

Berlin Alexanderplatz (1929), de Alfred Döblin

Dentro da Baleia e Outros Ensaios (1940), de George Orwell

Os Destinos do Sr. Norris (1935), de Christopher Isherwood

Halls Dictionary Of Subjects And Symbols In Art (1974), de James A. Hall (*)

David Bomberg (1988), de Richard Cork (*)

Blast (1914), de Wyndham Lewis (*)

Passing (1929), de Nella Larsen (*)

Beyond The Brillo Box (1992), de Arthur C. Danto (*)

The Origin Of Consciousness In The Breakdown Of The Bicameral Mind (1976), de Julian Jaynes (*)

No Castelo do Barba Azul (1971), de George Steiner

Duplo Diabólico (1985), de Peter Ackroyd

O Eu Dividido (1960), de R. D. Laing

Infants Of The Spring (1932), de Wallace Thurman (*)

Em Busca de Christa T. (1968), de Christa Wolf

O Rastro dos Cantos (1987), de Bruce Chatwin

Noites no Circo (1984), de Angela Carter

O Mestre e Margarida (1940), de Mikhail Bulgakov

A Primavera da Srta. Jean Brodie (1961), de Muriel Spark

Lolita (1955), de Vladimir Nabokov

Herzog (1964), de Saul Bellow

Puckoon (1963), de Spike Milligan (*)

Black Boy (1945), de Richard Wright

O Grande Gatsby (1925), de F. Scott Fitzgerald

O Zero e o Infinito (1940), de Arthur Koestler

A Terra Inútil (1922), de T.S. Elliot

McTeague (1899), de Frank Norris (*)

Grana (1984), de Martin Amis

O Outsider (1956), de Colin Wilson

Strange People (1961), de Frank Edwards (*)

English Journey (1934), de J.B. Priestley (*)

Uma Confraria de Tolos (1980), de John Kennedy Toole

O Dia do Gafanhoto (1939), de Nathanael West

1984 (1949), de George Orwell

A Vida e a Época de Little Richard (1984), de Charles White

Mystery Train (1975), de Greil Marcus

The Beano Magazine (quadrinhos, 1938 até hoje) (*)

Raw Magazine (quadrinhos, 1986-1991) (*)

Ruído Branco (1985), de Don DeLillo

Sweet Soul Music: Rhythm And Blues And The Southern Dream Of Freedom (1986), de Peter Guralnick (*)

Silence: Lectures And Writing (1961), de John Cage (*)

Writers At Work: The Paris Review Interviews (1958), editado por Malcolm Cowley (*)

Octobriana And The Russian Underground (1971), de Peter Sadecky (*)

The Street (1946), de Ann Petry (*)

Garotos Incríveis (1995), de Michael Chabon

Última Saída para o Brooklyn (1964), de Hubert Selby Jr.

A People’s History Of The United States (1980), de Howard Zinn (*)

The Age Of American Unreason (2008), de Susan Jacoby (*)

Metropolitan Life (1978), de Fran Lebowitz (*)

The Coast Of Utopia (2002), de Tom Stoppard (*)

A Ponte (1930), de Hart Crane

All The Emperor’s Horses (1961), de David Kidd (*)

Na Ponta dos Dedos (2002), de Sarah Waters

Poderes Terrenos (1980), de Anthony Burgess

Paralelo 42 (1930), de John Dos Passos

Tales Of Beatnik Glory (1975), de Ed Sanders (*)

O Pintor de Pássaros (1994), de Howard Norman

Nowhere To Run The Story Of Soul Music (1984), de Gerri Hirshey (*)

Antes do Dilúvio (1972), de Otto Friedrich

Personas Sexuais: Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson (1990), de Camille Paglia

The American Way Of Death (1963), de Jessica Mitford

A Sangue Frio (1966), de Truman Capote

O Amante de Lady Chatterley (1930), de D.H. Lawrence

A Criação da Juventude (2007), de Jon Savage

Vile Bodies (1930), de Evelyn Waugh (*)

Nova Técnica de Convencer (1957), de Vance Packard

Da Próxima Vez, o Fogo (1963), de James Baldwin

Viz Magazine (quadrinhos, de 1979 até hoje) (*)

Private Eye (revista satírica, 1961 até hoje) (*)

O Papagaio de Flaubert (1984), de Julian Barnes

Os Cantos de Maldodor (1868), de Comte de Lautréamont

Pé na Estrada (1957), de Jack Kerouac

Zanoni (1842), de Edward Bulwer-Lytton

Dogma e Ritual da Alta Magia (1856), de Eliphas Lévi

Os Evangelhos Gnósticos (1979), de Elaine Pagels

O Leopardo (1958), de Giuseppe Tomasi Di Lampedusa

A Grave For a Dolphin (1956), de Alberto Denti di Pirajno (*)

O Ataque (1996), de Rupert Thomson

In Between the Sheets (1978), de Ian McEwan (*)

Tragédia de um Povo (1996), de Orlando Figes

Journey Into the Whirlwind (1967), de Eugenia Ginzburg (*)

The Sound Of The City: The Rise Of Rock And Roll (1970), de Charlie Gillett (*)

Mr. Wilson’s Cabinet of Wonders (1995), de Lawrence Weschler (*)

As obras assinaladas com (*) não possuem edição brasileira.

Fonte: EL País – Brasil

12 mentiras que o cinema nos impôs e que engolimos sem reclamar

Com frequência se acusa Hollywood de tratar alguns episódios históricos sem muito rigor. A desculpa sempre foi que modificar certos aspectos da história são necessários para que a trama seja divertida para o espectador. Alguns exemplos: não é verdade que os autênticos vikings usassem chifres, explosões ruidosas não são possíveis no espaço, e Pocahontas e John Smith não se apaixonaram perdidamente.

Conversamos com historiadores, cientistas, psicólogos e até com a polícia para desmentir com sua ajuda essas licenças cinematográficas.

Os protagonistas de ‘Star Wars: O Acordar da Força’ (2015) fogem de uma explosão.

É mentira que… as explosões de Star Wars sejam ouvidas no espaço

O que nos contaram. Em Star Wars, saga que George Lucas iniciou em 1977, as explosões espaciais são tão clássicas quanto estrondosas. De fato, os sistemas de áudio dos cinemas atuais as potencializam.

O que realmente acontece. No espaço não há nem oxigênio nem som, por isso é inviável que algo exploda ali – para que haja fogo é necessário o oxigênio – nem que uma colisão produza os sons ensurdecedores ouvidos nos filmes de George Lucas. “Se sairmos da atmosfera da Terra, nada faz barulho. Isto se deve a que o som é uma onda que percebemos com nossos ouvidos, quando faz vibrar o tímpano e nosso cérebro interpreta o sinal. Mas para que isto ocorra, a onda necessita de um meio pelo qual se propagar. As ondas sonoras são ondas de pressão que se propagam pelo ar ou pela água, algo que não existe no espaço”, explica o cientista David Calle, autor de ¿Cuánto Pesan las Nubes? “O som se produz quando um corpo vibra com uma frequência compreendida entre 20 e 20.000 herz e, além disso, existe um meio material onde possa se propagar”, explica o cientista ao EL PAÍS.

– É mentira que… Freddie Mercury tenha ficado sabendo que estava com Aids no show do Live Aid

O que nos contaram. O filme que deu a Rami Malek (Los Angeles, 1981) o Oscar de melhor ator, Bohemian Rhapsody (2018), termina reproduzindo os 20 minutos épicos que o Queen protagonizou no festival Live Aid em 1985. Pouco antes dessa atuação, exibida ao vivo para mais de 70 países, Mercury – interpretado por Malek – descobre que tem Aids e o conta a seus colegas de banda, acrescentando que não quer que o tratem como um doente, e que atuará enquanto seu corpo resistir. Seu carisma sobre o palco e a recente confissão de sua doença fazem da atuação algo lendário.

O que realmente aconteceu. Freddie Mercury descobriu que tinha contraído o HIV em 1987, e não em 1985, como conta o filme para dotar de maior dramatismo a cena final. Ou seja, quando o Queen se apresentou no Live Aid, nem Mercury nem seus colegas sabiam que o cantor estava doente de Aids. Quatro anos depois de contar aos membros da banda, Mercury morria na intimidade do dormitório de sua mansão londrina (que chamou de Garden Lodge).

Freddie Mercury no ‘backstage’ do show Live Aid realizado em Londres, em 13 de julho de1985. À sua esquerda, seu namorado, Jim Hutton.

– É mentira que… as pistolas com silenciador praticamente não façam barulho

O que nos contaram. Em Onde os Fracos Não Têm Vez (2008), Javier Bardem mata suas vítimas com uma escopeta que quase não faz barulho, graças a um silenciador. Este é só um exemplo entre muitos. Nas sagas de James Bond e Missão Impossível, seus protagonistas também se valem deste artefato para acabar com o inimigo de forma discreta.

O que realmente acontece. Uma arma de fogo é ruidosa por mais que tenha um silenciador acoplado. “Se uma pistola emitir um ruído de 10, em uma escala de 1 a 10, uma pistola com silenciador emite um ruído de 6 sobre 10. Não é nada sutil, distingue-se claramente que se trata de um tiro”, afirma ao EL PAÍS um funcionário da loja de armas Shoke, de Madri. Um porta-voz da polícia espanhola, por sua vez, nos confirma que as armas com silenciador não passam despercebidas. “Continuam sendo bastante ruidosas”, comenta.

Javier Bardem interpreta um assassino em serie em ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’ (2008).

– É mentira que… os esquimós vivam em iglus

O que nos contaram. Que os esquimós (ou inuit, como se chamam a si mesmos) vivem em casas de gelo com forma circular, onde se protegem do frio graças à capacidade isolante do gelo.

O que realmente acontece. Ao contrário do que se acredita, os esquimós vivem em cabanas de madeira e usavam os iglus de forma muito pontual. “Em geral, os esquimós usavam os iglus só como moradias provisórias durante suas expedições de caça nas regiões árticas durante o inverno. Não estavam acostumados a habitá-los e preferiam outro tipo de casas. É verdade que, sobretudo no Ártico canadense e no norte do Alasca, foram construídos iglus maiores, que podiam servir como moradias familiares, mas não era o mais comum”, explica ao EL PAÍS o historiador José Soto Chica, doutor pela Universidade de Granada (Espanha).

– É mentira que… os capacetes dos vikings tivessem chifres

O que nos contaram. É difícil imaginar um viking sem chifres. O motivo é que óperas como O Crepúsculo dos Deuses (Wagner, 1876) e filmes como Vicky, o Viking (1974) sempre representaram estes guerreiros, que habitaram o norte da Europa entre 700 e 1100, com capacetes coroados com chifres.

O que realmente aconteceu. Carl Emil Doepler, figurinista das óperas de Wagner, inspirou-se no pintor sueco August Malmström para criar a roupa dos vikings protagonistas destas óperas. Malmström ilustrou o poema épico A Saga de Frithiof retratando os vikings com capacetes com asas, elemento que Doepler reinterpretou transformando-as em chifres, sem basear-se em nenhum dado histórico, e que acabou entrando para o imaginário coletivo como algo inerente aos vikings. “Os trabalhos arqueológicos não permitiram afirmar que os capacetes daqueles guerreiros escandinavos tivessem chifres”, aponta Alfonso López Borgoñoz, ex-presidente da ARP Sociedade para o Avanço do Pensamento Crítico. O único elmo viking completo encontrado até hoje é o Gjermundbu (Noruega) e avaliza a opinião do López Borgoñoz, pois não há nem rastro de que esse gorro desenhado à base de placas de ferro fosse equipado com chifres.

O filme ‘Vicky, o Viking’ (2009) é mais um exemplo de que os vikings sempre são representados com chifres no cinema.

– É mentira que… Anastásia tenha sobrevivido à matança que os bolcheviques perpetraram contra sua família, os Romanov

O que nos contaram. Tanto a animação Anastásia (1998) como o musical homônimo centram-se na vida da filha caçula do czar Nicolau II. A trama conta que Anastásia, nome da filha mais nova dos Romanov, sobreviveu à matança cometida pelos bolcheviques na noite de 16 para 17 de julho de 1918, durante a guerra civil russa. Depois do massacre que acabou com a vida de seus pais e seus quatro irmãos, Anastásia passou alguns anos desaparecida. Nesse tempo, muitas jovens impostoras afirmaram ser Anastásia, até que finalmente a verdadeira se reencontrou com sua avó, a imperatriz Maria Fiodorovna Romanova.

O que realmente aconteceu. Anastásia morreu no mesmo dia que sua família. “É completamente falso que Anastásia tenha sobrevivido. A única verdade é que a jovem morreu junto com o resto dos Romanov”, afirma ao EL PAÍS Fernando Camacho, professor de História na Universidade Autônoma de Madri. Em 1991 foram encontrados os restos do czar Nicolau II, sua esposa Alexandra Fiodorovna e dos seus três filhos. Em 2007, acharam-se os restos dos outros dois filhos. Ao cotejar o DNA mitocondrial de uns e outros, revelou-se que todos coincidiam. Esse exame corroborou que uma das filhas encontradas junto à czarina era Anastásia, e acabou de uma vez por todas com o mito da grande duquesa. “Não há dúvida de que Anastásia Romanova morreu assassinada. A Anastásia que inspirou o musical era uma impostora (possivelmente um pouco perturbada), que conseguiu convencer muita gente, inclusive familiares da princesa. Mas nunca foi reconhecida oficialmente, entre outras coisas porque nem falava russo nem sabia nada da família real”, conta José María Faraldo, professor de História Contemporânea da Universidade Complutense de Madri.

Retrato de Anastásia, a filha caçula do czar russo Nicolau II.

– É mentira que… Pocahontas e John Smith tenham se apaixonado.

O que nos contaram. Pocahontas foi uma nativa norte-americana que nasceu em 1595, filha mais velha do chefe da confederação algonquina da Virgínia, o chefe Powhatan; e a Disney contou sua história em 1995 na animação homônima. No longa, Pocahontas e John Smith se apaixonam, mas as circunstâncias sociais – ela é uma indígena americana, e ele um explorador inglês – não facilitam as coisas. Além disso, devem enfrentar um pai intransigente, o dela, que quer para Pocahontas um casamento de conveniência com outro indígena da tribo, Kocoum, a quem a jovem rechaça categoricamente.

Na animação Anastásia (1998), a filha mais nova do czar Nicolau II sobrevive à matança perpetrada pelos bolcheviques, que acabou com a vida de seus pais e irmãos.

O que realmente aconteceu. Para começar, não se chamava Pocahontas. Seu nome era Matoaka. Para continuar, nos diários de Smith (escritos entre 1607 e 1612) fica claro que Pocahontas e ele nunca se apaixonaram. Ela tinha 10 anos e o chamava de “pai”, porque ele tinha 27. Na verdade, Pocahontas se casou com Kocoum, por quem sim estava apaixonada, e salvou a vida de Smith quando sua tribo o sentenciou à morte – colocou-se no meio justamente antes de cortarem a cabeça do colono. Anos depois, após enviuvar, Pocahontas viajou a Londres, onde voltou a se casar, mas morreu aos 22 anos, em 1617. Desde então, o mito de seu romance com John Smith, alimentado pela Disney, maquiou o genocídio que os colonos perpetraram contra os nativos americanos.

O filme ‘Pocahontas’, da Disney, conta a história de amor entre uma nativa norte-americana, Pocahontas, e um capitão inglês, John Smith.

– É mentira que… Ocorra uma explosão quando se atira uma bituca de cigarro em uma superfície com gasolina

O que nos contaram. Existem inúmeros exemplos no cinema de ação (e inclusive nas comédias) onde ocorrem explosões quando alguém acende um cigarro ou joga uma bituca em uma superfície borrifada de gasolina. Em Zoolander (2001), filme onde Ben Stiler dá vida a um modelo um tanto descerebrado, há uma cena em que o protagonista está fazendo-se de idiota num posto de gasolina com vários colegas e, depois de jogar combustível sobre o carro, alguém acende um cigarro e ocorre uma explosão.

O que realmente acontece. Para que ocorra uma grande explosão, a gasolina precisa de um foco de ignição potente, como uma boa fagulha. A bituca de um cigarro apenas queima, por isso é muito difícil que ao cair ao solo ocorra uma explosão. “As misturas de combustíveis só queimam em condições muito específicas de concentração no ar. Isto quer dizer que não é tão simples que ocorram as grandes explosões que vemos no cinema ao atirar um cigarro no chão. Para que isto ocorra seria preciso algo que queime muito mais”, explica ao EL PAÍS o cientista David Calle.

– É mentira que… a primeira experiência sexual seja idílica.

O que nos contaram. Em Segundas Intenções (1999), Ryan Phillippe interpreta Sebastian Valmont, um jovem libidinoso cujo passatempo favorito é seduzir e levar para a cama todas as mulheres que encontra. Reese Witherspoon é Annette Hargrove, uma estudante sem experiência sexual até que Sebastian cruza seu caminho. Ele consegue que Annette mude de opinião sobre esperar até o casamento, e o casal tem um encontro sexual, o primeiro para ela, onde tudo sai às mil maravilhas.

O que realmente acontece. “A primeira vez costuma ser bastante desastrosa. A inexperiência faz que seja algo atrapalhado (muitos homens nem sequer estão seguros de onde está o buraco) e doloroso para muitas mulheres”, diz a sexóloga Ruth Osset ao EL PAÍS. “Entretanto, nos filmes se mostra como um momento idílico, em que não se sua e não se despenteia nem um cabelo”, observa Ousset. A sexóloga explica também que o clichê cinematográfico de que os homens sempre têm vontade de praticar sexo é falso: “Os homens nem sempre estão dispostos. O cansaço e o estresse a que estamos expostos diariamente causam muito dano e são fatais para a libido. Outra realidade que não se mostra nos filmes é que há homens que têm dificuldades para abrir e colocar o preservativo. Muitos inclusive perdem a ereção tentando”.

– É mentira que… Cleópatra tivesse vestidos luxuosos e joias

O que nos contaram. Em Cleópatra, o filme mais elogiado sobre esta rainha, dirigido em 1963 por Joseph L. Mankiewicz, o figurino da protagonista (Elizabeth Taylor) custou 194.000 dólares naquela época – em valores atualizados pela inflação, seriam 1,6 milhão de dólares (6,78 milhões de reais). O motivo? Taylor ostentou inumeráveis trajes e adornos ao longo das quatro horas de metragem (inicialmente eram seis, mas a produtora pediu a Mankiewicz que cortasse duas). Segundo essa visão, Cleópatra teria sido uma espécie da Madonna helenística, uma estrela do pop sempre rodeada de padrões complexos, decorações extremas e cores extravagantes.

O que realmente aconteceu. Durante muitos séculos, a indumentária do Egito foi muito humilde. “A civilização egípcia era bastante estática, estilisticamente falando. Lá usavam tecidos muito simples, principalmente linho, porque a lã era considerada impura por sua procedência animal, e, embora bordassem e tingissem, faziam-no com sobriedade. Os objetos que vestiam eram túnicas ou panos leves drapeados”, explica Carlos Primo, professor de Sociologia e História da Moda na Escola de Design IADE. É verdade que Cleópatra era de ascendência grega, mas, como observa Primo, nem sequer essas origens sustentam a ideia de que uma soberana egípcia vestisse trajes tão elaborados. “O vestuário da Cleópatra de Liz Taylor é uma mistura de diferentes influências: as representações teatrais e operísticas da personagem no século XIX (desde a de Shakespeare à Aida de Verdi), o vestuário das primeiras bailarinas de dança oriental que triunfaram nos Estados Unidos no começo do século XX e, obviamente, a moda da época. Há citações literais a Dior ou Charles James no figurino do filme, silhuetas trazidas literalmente dos anos cinquenta e sessenta e maquiagens similares às que podiam aparecer na capa da Harper’s Bazaar ou Vogue”, aponta o especialista em moda.

A Cleópatra que Elizabeth Taylor interpretou em 1963 era uma espécie de estrela pop que se vestia de forma luxuosa e extravagante.

– É mentira que… O Titanic fosse impossível de afundar, como diz o famoso filme

O que nos contaram. Em 1997, o diretor James Cameron estreou Titanic, que foi durante 12 anos – de 1997 a 2009 – o filme de maior bilheteira da história. A trama do longa, protagonizado por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, gira em torno de um luxuoso navio, o Titanic, que afunda ao se chocar com um iceberg apesar de ter como principal característica a sua suposta insubmersibilidade. Esse navio existiu, zarpou de Londres com direção a Nova York em 1912 e afundou no meio do Atlântico antes de chegar ao seu destino. No filme de Cameron, faz-se menção em repetidas ocasiões a essa “insumersibilidade” que o diferenciaria das demais embarcações. Logo antes de embarcar no Titanic, a mãe da protagonista (Winslet) comenta: “Então este é o navio que dizem que não tem como afundar”. E o seu futuro genro confirma: “Nem Deus poderia afundá-lo”.

O que realmente acontece. O professor de Sociologia cultural do King’s College de Londres Richard Howells afirma em seu livro The Myth of the Titanic (1999) que a White Star Line, empresa dona do navio, nunca disse que este fosse insubmersível. “Não é verdade que o Titanic fosse visto pelo público como um navio insubmersível. É um mito que surgiu depois do naufrágio para dar um caráter épico à história”, diz o autor. O jornalista Philip Howard, dessa mesma opinião, escreveu em 1981 no The Times que “não há nenhuma prova de que o Titanic fosse considerado insubmersível. A palavra insubmersível começa a aparecer na imprensa um dia depois do afundamento. E isto ocorre para dar grandiloquência ao acidente”.

Em 1997, James Cameron levou ao cinema a história do ‘Titanic’.

– É mentira que… William Wallace herói de ‘Coração Valente’, pintasse o rosto de azul

O que nos contaram. A imagem mais célebre da superprodução histórica Coração Valente (1995), ganhadora de cinco Oscars, é o rosto pintado de azul de seu protagonista William Wallace (interpretado por Mel Gibson). No filme, Gibson dá vida ao herói escocês do século XIV que lidera a batalha pela independência escocesa contra os ingleses. E o faz, assim como os outros homens que lutam ao seu lado, com um look chamativo que passou à história: o rosto camuflado de pintura azul.

O que realmente acontece. Quem realmente pintava o rosto de azul eram os pictos, povo que habitou a Escócia durante a invasão romana, no ano 47 depois de Cristo. “Os pictos eram indígenas que lutaram contra os romanos e pintavam a cara de azul para infundir pavor. Entretanto, os escoceses não pintavam o rosto na Idade Média, quando transcorre a trama de Coração Valente”, observa Miguel Ángel Perfecto, professor de História Contemporânea da Universidade de Salamanca (Espanha) e especialista em história da Escócia. Outra inexatidão histórica que o historiador aponta é que na Idade Média não existiam nem a ideologia nem os movimentos nacionalistas, portanto William Wallace não poderia ser o líder do nacionalismo escocês retratado no filme. “O nacionalismo surgiu com as revoluções burguesas no século XIX. No século XIV, que é a época em que se passa Coração Valente, ainda não existiam”, relativiza Perfecto.

O traço mais característico de William Wallace, protagonista de ‘Coração Valente’ (1995) é sua cara pintada de azul. Mas era esse mesmo o aspecto dos guerreiros escoceses da Idade Média?
O último filme de Amenábar, ‘Enquanto dure a guerra’, conta como foram os inícios da Guerra Civil espanhola, contenda na que Franco teve um papel principal.

Fonte: EL País – Brasil

Os livros que explicam a derrubada de Evo Morales

Retrato do ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, entre as chamas.Gustavo Amador (EFE)

Até poucas semanas atrás, Evo Morales parecia ter a Bolívia sob seu controle. O presidente indígena, depois de 14 anos no Governo, pretendia se perpetuar no poder um mandato mais, mas, como diz o renomado sociólogo boliviano René Zavaleta “na França sul-americana a política acontece entre revoluções e contrarrevoluções”. Morales foi derrubado. De seu exílio no México testemunha como a classe média não indígena responsável por sua saída agora ocupa o poder. Seu desprestígio em alguns setores populares e indígenas, os estratos da população que prometeu proteger, cresceu ao longo dos anos. Muitos deles se juntaram à revolta ou não defenderam seu líder histórico. O Exército foi o último ator a se juntar ao movimento sedicioso, por oportunismo político. O coquetel perfeito para um final (por enquanto) que uma extensa produção bibliográfica havia antecipado.

Mais informações

O escritor político mais famoso do “processo de mudança” de Morales (2006-2019) foi o vice-presidente Álvaro García Linera, autor de muitos ensaios que, na esteira do filósofo italiano Toni Negri, exaltavam “o poder constituinte” dos trabalhadores e dos indígenas bolivianos. García Linera propunha “a superação da democracia representativa”, uma abordagem que não foi adotada pela Assembleia Constituinte (2006-2008), que, em vez disso, aprovou uma Constituição na qual nacionalismo, indianismo e liberalismo se misturam, como Salvador Schavelzon documenta em El Nascimento del Estado Plurinacional de Bolivia.

Esse Estado substituiu o modelo republicano que imperava na década de 1990, o que implicou a entrada oficial dos símbolos indígenas — como a bandeira wiphala — e da fé animista indígena. Essas incorporações provocaram a ira dos opositores “não indígenas” de Morales, que, mais de uma década depois, e liderados pelo fervoroso católico Luis Fernando Camacho, “devolveram a Bíblia ao Palácio”.

Debates em torno do Estado Plurinacional

Para alguns intelectuais, o Estado Plurinacional foi o primeiro passo para “descolonizar” a Bolívia, ou seja, para superar o racismo histórico das classes dominantes brancas. Assim explicou o filósofo Juan José Bautista em Crítica de la Razón Boliviana.

Esse esforço implicou uma “afirmação positiva” dos indígenas que foi qualificada de racista pelo indianista liberal Carlos Macusaya (Batallas por la Identidad) e como um meio de subordinar os indígenas ao Estado por Silvia Rivera, a mais importante socióloga boliviana viva. A autora considerou Morales “um desenvolvimentista imbuído de um propósito semelhante ao das elites brancas: homogeneizar, por meio da expansão do capitalismo, a realidade “ch’ixi” (diversa) do país (Un Mundo ch’ixi Es Posible). A diversidade ameaçada por Morales consistia na combinação de diferentes “civilizações”, lógicas produtivas e organizacionais e formas culturais.

Debates em torno da identidade

Em 2001, 62% dos bolivianos se identificaram como indígenas; em 2012, esse número caiu para 41%. O que acontecia com a identidade boliviana durante o “processo de mudança”? Muitos livros trataram dessa questão. Verushka Alvizuri, em La Construcción de la Aimaridad, afirmou que a aimara, como todas as nações, não era natural ou essencial, mas resultado de um processo premeditado de criação política. A partir de uma posição pós-moderna, Javier Sanjinés criticou o projeto clássico de misturar e uniformizar os bolivianos em El Espejismo del Mestizaje; e o político e historiador Carlos Mesa o defendeu em La Sirena y el Charango.

Abordagens racistas tampouco faltaram: Óscar Olmedo, em Paranoia Aimara, antecipou uma década a opinião que emergiu com grande força nas últimas semanas. Pensando nas marchas indígenas de apoio a Morales, Olmedo escreveu: “A caterva não só arrasta os pés deploravelmente pelas ruas como também o faz com os refrões… transformados em frases lodosas e grumosas… Não há mais nada. Não vai além disso.”

Esse racismo reativo aos avanços dos indígenas foi estudado por Rafael Loayza em Las Caras y las Taras del Racismo. Loayza descobriu que os “não indígenas falantes de castelhano”, sentindo-se oprimidos pelo Estado Plurinacional, haviam desenvolvido uma espécie de consciência étnica; um achado que explica, em boa parte, a força do mencionado levante das classes médias urbanas contra Morales.

A figura do patriarca

Durante seu Governo, as biografias do líder indígena foram numerosas: …Un Tal Evo, Evo… Rebeldía de la Coca, Evo, Espuma de Plata. Algumas eram claramente hagiográficas. O escritor Eusebio Gironda informou à imprensa que em seu livro Illapa del Wiracocha, el Rayo “Evo é o enviado do deus Wiracocha para executar o que está fazendo”.

O próprio Morales ditou a outro de seus próximos, Iván Canelas, Mi Vida – De Orinoca al Palacio Quemado. Este livro não teve o sucesso de Jefazo, do escritor argentino Martín Sivak. Nesta obra sobre os hábitos caóticos e caudilhistas do presidente aparece a que hoje é uma sugestiva relação, por parte do biografado, de um de seus sonhos: “Eles vêm atrás de mim e tenho que me defender. Acham que eu não sei quem foi Katari”.

Fonte: EL País – Brasil

Os melhores livros do século XXI

“Fazer listas”, escreve Alberto Manguel em seu O Diário de Leituras, “dá origem a certa arbitrariedade mágica, como se a simples associação pudesse criar sentido”. Pois bem, que sentido se pode encontrar em uma lista que tenta fazer um balanço das duas primeiras décadas do século XXI? Vamos começar pelo princípio. Naquela terça-feira de 11 de setembro de 2001 dois aviões de passageiros sequestrados por terroristas suicidas derrubaram as Torres Gêmeas de Nova York, mataram quase 3.000 pessoas e mudaram o mundo para sempre. De passagem, mandaram para o quarto de despejo a hipótese hegeliana do fim da história reciclada por Francis Fukuyama depois da queda do muro de Berlim e resolveram a discussão sobre se o século XXI começava no ano de 2000 ou em 2001. A guerra das galáxias ficou no choque de civilizações. O computador passou no teste de efeito 2000, mas seu usuário –a nova grande palavra– entrou na era do medo, da insegurança, da precariedade, da intimidade (pública) e da realidade (virtual).

O futuro tinha chegado tão cedo em forma de estilhaços que os cinemas ficaram repletos de remakes; as livrarias, de cânones, coletâneas e resumos e listas do melhor melhor e dos mais mais (que se deveria ver, ler e escutar… antes de morrer). Também de escritos com um fundo de história universal e livros de não-ficção ou autoficção que dão tanto valor ao enredo como a seu making-of. Incapaz de imitar uma realidade presente que parecia de romance, a literatura se voltou para o passado, a memória (histórica apenas), a investigação jornalística, em primeira pessoa e na própria literatura, que se tornou metatudo.

Daí o triunfo absoluto de 2666, um livro total composto por cinco partes e publicado no segundo semestre de 2004, no ano seguinte à morte de seu autor. Desde Borges –meticulosamente retratado por Adolfo Bioy Casares em um diário já inevitável -, nenhum escritor influenciou tanto as novas gerações como Roberto Bolaño. O fato de seus livros começarem a ser publicados na Espanha pela Anagrama e atualmente pela Alfaguara –as duas editoras espanholas mais presentes na lista da Babelia– é outro sintoma do peso de alguns selos na criação do gosto contemporâneo.

O escritor chileno Roberto Bolaño, em 1997.
O escritor chileno Roberto Bolaño, em 1997.MANOLO S. URBANO

Talvez por uma mera questão geracional, a literatura canônica das duas primeiras décadas do século XXI se ocupou de cutucar as feridas do século XX. As guerras mundiais, a guerra civil espanhola, o período pós-guerra, a descolonização, as migrações, o apartheid, as ditaduras latino-americanas, a queda do império soviético, os feminicídios em Ciudad Juárez ou as turbulências no Oriente Médio podem ser rastreados na obra do próprio Bolaño e de Ian McEwan, WG Sebald, Javier Marías, Javier Cercas, Tony Judt, Mario Vargas Llosa, J.M. Coetzee, Zadie Smith, Svetlana Aleksiévich, Emmanuel Carrère, Marjane Satrapi e Edmund de Waal.

Se esses autores começam a ser canônicos, não é apenas por causa dos tópicos que abordam, mas também pela maneira como o fazem: misturando realidade e ficção, narração e reflexão, dinamizando os gêneros tradicionais ou deixando que sua intimidade sem filtros discutia com a história. Universal. Esse eu com vontade de nós é o que produziu, além do mais, títulos como os de Joan Didion, Lucia Berlin, Anne Carson e Raúl Zurita –que deu à sua obra magna o próprio sobrenome–, e sobretudo os seis volumes de Karl Ove Knausgård.

A grande história e a intimidade bruta também estão presentes em títulos de sucesso do século XXI, como O Código Da VinciO Menino do Pijama Listrado ou Cinquenta Tons de Cinza. Por que não estão nesta lista? Talvez porque não se encaixem na definição que o crítico Northrop Frye cunhou para “grande literatura”: aquela que é “dona de uma visão sempre mais vasta do que a de seus melhores leitores”. O poeta Wystan Hugh Auden fez a seguinte ponderação: “Existem livros que foram injustamente esquecidos; ninguém é lembrado injustamente”.

crise econômica de 2008 acrescentou a indignação à insegurança e deu razão a um romance premonitório publicado na Espanha um ano antes: Crematorio, de Rafael Chirbes. Por tabela, empoderou –o verbo do século– um gênero e uma geração. O feminismo e o ambientalismo são, por ora, a resposta mais contundente a uma tendência insustentável que está a caminho de transformar em realismo puro um romance de, digamos, ficção científica como A Estrada, de Cormac McCarthy. Protagonizado por dois homens sozinhos –pai e filho– que vagam por um planeta devastado, a distopia do autor norte-americano inclui em suas páginas algo que se assemelha a uma definição da literatura de hoje: “Deus não existe e nós somos os seus profetas”.

1. ‘2666’, Roberto Bolaño

“2666 é o melhor de uma produção literária prematuramente interrompida”, escreveu Ana María Moix em Babelia em 2004, “Amalfitano, um dos protagonistas da segunda das cinco partes ou romances que compõem 2666, obra póstuma de Roberto Bolaño (1953- 2003), originalmente publicada na Espanha pela Anagrama e atualmente disponível na Alfaguara, rememora do México uma conversa mantida anos antes em Barcelona com um jovem farmacêutico que passava suas noites de serviço lendo. O jovem gostava de ler romances curtos como A Metamorfose de Kafka. Bartleby, o Escrevente, de Melville; Um Coração Simples, de Flaubert, ou Um Conto de Natal, de Dickens, títulos que escolhia, em vez de O ProcessoMoby DickBouvard e Pécuchet ou As Aventuras do sr. Pickwick, longos romances dos autores citados. “Que triste paradoxo, pensou Amalfitano”, escreve Bolaño. “Nem mesmo os farmacêuticos esclarecidos se atrevem mais às grandes obras imperfeitas e torrenciais que abrem caminhos no desconhecido. Escolhem os exercícios perfeitos dos grandes mestres (…) ‘. E, de fato, isso é 2666: uma grande obra torrencial, que abre caminhos no desconhecido.” Moix ressalta que as cinco partes dessa grande obra podem ser lidas separadamente, mas se perderia a grandeza que elas alcançam juntas. Editora: Companhia das Letras

10. ‘O ano do pensamento mágico’, Joan Didion

“A obra de não ficção de Joan Didion (1934) exemplifica bem o gênero conhecido como ensaio pessoal, uma forma de escrita cujo objetivo é submeter as circunstâncias históricas ou sociológicas a um exame de uma perspectiva radicalmente subjetiva”, escreveu Eduardo Lago em 2005 nestas páginas. Este livro de luto é, nas palavras do escritor, “o mais pessoal, pela temática íntima e dolorosa”: a morte de seu marido. Editora Nova Fronteira.

2. ‘Austerlitz’, W. G. Sebald

O romance do alemão W. G. Sebald (1944-2001) narra a odisseia vital de um homem sem história chamado Jacques Austerlitz em busca desse tecido perdido no tempo que são os seus pais. O protagonista caminha sobre os restos de uma devastação insuportável após duas guerras. “Austerlitz é uma representação formidável do destino do homem moderno levado a um extremo: o do desenraizamento extremo; e da capacidade de sobrevivência do ser humano”, escreveu nestas páginas José María Guelbenzu em 2002. Editora Companhia das Letras

3. ‘La belleza del marido’, Anne Carson

Anne Carson (1950) abordou em The Beauty of the Husband o conflito desencadeado por sua separação. “Há neste poemário”, escreveu o crítico Ángel Rupérez em 2003, “uma tensão entre a idealização inicial do marido (…) e o colapso desse ídolo que consegue exceder em muito o anedotário mais estritamente autobiográfico e confessional, constantemente transformado em matéria poética contaminada por uma respiração lírica contínua e subterrânea –não explícita– feita de elegia contida e crença incondicional na beleza”.

4. ‘A Festa do Bode’, Mario Vargas Llosa

A Festa do Bode é uma história sobre o ditador dominicano Rafael Leónidas Trujillo Molina e, ao mesmo tempo, um impressionante retrato da corrupção destrutiva das ditaduras. Em sua crítica de 2000, o argentino Tomás Eloy Martínez definiu o livro do Prêmio Nobel Mario Vargas Llosa (Arequipa, 1936) como “um retrato implacável do poder absoluto em um romance que se lê do começo ao fim sem pausa para respirar”. Editora Alfaguara.

5. ‘Reparação’, Ian McEwan

Com rigor e um talento infinito, o britânico Ian McEwan (Aldershot, 1948) vem construindo uma obra tão variada como imprevisível. Reparação é um de seus romances mais célebres, muito antes de ser levado ao cinema. Em sua crítica, Andrés Ibáñez descreveu o romance em 2002 como “uma história de ambição e um alcance pouco frequentes”. “É, acima de tudo”, prosseguiu, “um triunfo da imaginação criativa, uma obra que justifica em si a existência da arte do romance”. Editora Companhia das Letras.

6. ‘Limónov’, Emmanuel Carrère

Emmanuel Carrère (Paris, 1957) construiu seu próprio gênero, no qual mistura autobiografia com o retrato de personagens insólitos. Foi assim que o autor definiu seu protagonista em 2013: “Ele era um pilantra na Ucrânia, um ídolo do underground soviético, um mendigo e depois um mordomo de um milionário em Manhattan; escritor em Paris, soldado nos Bálcãs e, agora, no imenso bordel do pós-comunismo na Rússia, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados. Ele se vê como um herói, mas também pode ser considerado um descarado: não me atrevo a julgá-lo”. Editora Alfaguara.

7. ‘Seu Rosto Amanhã’, Javier Marías

Javier Marías encerrou sua trilogia Seu Rosto Amanhã em 2007 com Veneno e Sombra e Adeus (Volume 3), em que reflete sobre o egoísmo, a verdade e a culpa. José-Carlos Mainer qualificou a obra como exemplo do gênero de autoficção: “Marías alcançou a construção mais sustentada, complexa e importante que essa vontade (de estilo e gênero) produziu nas novas letras espanholas”. Mainer descreve a obsessão pela “natureza da verdade” e acredita que “o ponto de partida da existência é o egoísmo”. Editora Companhia das Letras.

8. ‘Borges’, Adolfo Bioy Casares

“Das 20.000 páginas de cadernos íntimos que Bioy (1914-1999) escreveu ao longo de sua vida, seu relacionamento com Borges ocupa 1.700″, explicou Javier Rodríguez Marcos em um texto de 2006. São as que ele preparou para este volume antes de morrer: “Embora o livro se estenda entre 1931 e 1989, Bioy resume os primeiros 15 anos em uma dezena de páginas. Claro, brilhantes. Os diários borgianos de Bioy estão cheios de literatura”. Borges disse que a relação entre eles era de uma profunda amizade “sem intimidade”, cuja pedra angular eram os livros.

9. ‘Verão’, J. M. Coetzee

Verão, a terceira parte das memórias do sul-africano J.M. Coetzee (1940), “revela uma audácia literária que embora consequente com a última parte de sua obra não deixa de ser um desafio original”, escreveu José María Guelbenzu em 2010. Neste livro, cinco entrevistados criam com seu testemunho um Coetzee pessoal e íntimo, em um documento que expressa a vivacidade do espírito do escritor e seu compromisso irredutível com a verdade literária. Editora Companhia das Letras.

11. ‘Minha Luta’, Karl Ove Knausgård

O norueguês Karl Ove Knausgård (1968) narra sua vida em seis volumes, sob o título de Minha Luta, como autobiografia de Hitler. “Um despejar documental que precisa existir para que surja, de vez em quando, um prodígio que por si só pareceria puramente retórico, mas que, nascido do esmagador acúmulo de detalhes, se torna uma epifania”, opinou Alberto Manguel em 2014. Editora Companhia das Letras.

20. ‘Persépolis’, Marjane Satrapi

Em Persépolis, a única história em quadrinhos da lista, a autora iraniana fala da revolução islâmica de 1979 vista por uma menina, que Marjane Satrapi era então, aos 10 anos, quando teve que passar a usar um lenço pela primeira vez para ir à escola. “Eu tinha um dever para com o meu país”, disse ela a Jaume Vidal em uma entrevista em 2002. Uma história em quadrinhos em preto e branco porque, de acordo com Satrapi, “o vermelho do sangue poderia ser muito dramático”. Editora Companhia das Letras.

12. ‘A Estrada’, Cormac McCarthy

Um pai e seu filho, sobreviventes de uma catástrofe nuclear, caminham em direção a um sul que, apenas talvez, seja sua salvação. “Unidos pelo amor e pelo medo, são a expressão de uma solidão intolerável”, escreveu J. M. Guelbenzu em sua crítica a este romance de Cormac McCarthy (1933). Editora Alfaguara.

13. ‘Crematório’, Rafael Chirbes

Rafael Chirbes (1949-2015) narrou neste romance a corrupção urbanística na Espanha. “Com uma escrita de precisão clínica em que, às vezes, perpassa um lirismo medido, o escritor não cede ao esquecimento da grande e pequena história de nosso país. Como se Galdós vigiasse”, escreveu J. E. Ayala-Dip sobre o autor e sua obra.

14. ‘Dentes brancos’, Zadie Smith

“O traço mais característico da escrita de Zadie Smith (1975) é sua propensão à sátira. No entanto, Dentes Brancos não é um romance engraçado”, escreveu Francisco Solano em 2001.“ Retrata o espaço multirracial habitado por filhos de imigrantes, cuja assimilação à metrópole, junto com o confronto com os pais, os leva a serem vítimas de uma miscelânea ideológica e religiosa que produz claros efeitos de atordoamento”. Editora Companhia das Letras.

15. ‘Manual da Faxineira: Contos Escolhidos’, Lucia Berlin

A norte-americana Lucia Berlin (1936-2004) começou a publicar (não a escrever) muito tarde e somente no final do século passado passou a ser reconhecida como uma narradora excepcional. Manual Da Faxineira: Contos Escolhidos é uma antologia de histórias baseada na vida itinerante da autora, alcoólatra, que trabalhou em todos os tipos de empregos para manter seus filhos. “Tudo o que ela relata tem cheiro de verdade”, afirmou José María Guelbenzu em 2016. Editora Companhia das Letras.

16. ‘Zurita’, Raúl Zurita

“A primeira impressão produzida por Raúl Zurita (Santiago, 1950) é a de um poeta perdido no mundo do mistério e da espiritualidade”, escreveu o cronista Patricio Fernández em 2012. “Ele não lê, canta, se lamenta e reza.” E esse poeta publicou naquele ano sua particular autobiografia, um poema de 800 páginas em que se expõe cruamente como jamais antes.

17. ‘Pós-Guerra – Uma História da Europa desde 1945’, Tony Judt

O historiador britânico (1948-2010) conseguiu com este livro uma façanha, misturando as máquinas de lavar roupa, os Beatles e Margaret Thatcher. Ou seja, a vida cotidiana, a cultura e a política. “A nova Europa constitui um sucesso notável, vitalmente ligado a um passado terrível”, escreveu Santos Juliá em sua resenha. “Para que os europeus sempre conservem esse vínculo vital é preciso ensiná-lo de novo a cada geração.” Editora Objetiva.

18. ‘Soldados de Salamina’, Javier Cercas

Em sua crítica de Soldados de Salamina, em 2001, J. Ernesto Ayala-Dip falou da mistura entre “o relato real” que se aborda no livro de Cercas e “a obra de ficção” que realmente é. A história do fracassado fuzilamento de Rafael Sánchez Mazas, escritor e fundador da Falange, se desenvolve com “essa prosa que desliza com a naturalidade que a maturidade dá”, acrescentou Ayala-Dip sobre esse romance. Editora Biblioteca Azul.

19. ‘O Fim do Homem Soviético’, Svetlana Aleksiévich

Quando Svetlana Aleksiévich (Ucrânia, 1948) recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, muitos leitores descobriram a força de uma obra, a meio caminho entre o jornalismo e a história. O Fim do Homem Soviético oferece as vozes daqueles que viveram o fim do comunismo. “Sua obra também é uma revanche do jornalismo”, escreveu Lluís Bassets sobre o livro, “que busca as fontes mais modestas e as experiências mais simples para explicar o que foi silenciado durante as sete décadas soviéticas”. Editora Companhia das Letras.

21. ‘A Lebre com Olhos de Âmbar’, Edmund de Waal

Por meio da história de 264 miniaturas japonesas chamadas netsukes –entre elas, a lebre que dá título ao livro–, Edmund de Waal (Nottingham, 1964) constrói a história de sua família, embora ele vá muito além em um retrato da história recente da Europa e de suas profundas feridas e ausências. Editora Intrínseca.

Do 22 ao 50

22. O Grande, Juan José Saer

23. Não me Abandones Jamais, Kazuo Ishiguro

24. Anatomia de um Instante, Javier Cercas

25. Felicidade Demais, Alice Munro

26. Tábula Rasa, Steven Pinker

27. Os Anos, Annie Ernaux

28. Hurricane Season, Fernanda Melchor

29. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, Yuval Noah Harari

30. Kafka à Beira-Mar, Haruki Murakami

31. El Nervio Óptico, María Gainza

32. Anos de Formação: Os Diários de Emilio Renzi, Ricardo Piglia

33. O Romance Luminoso, Mario Levrero

34. Na Presença da Ausência, Mahmud Darwish

35. Incêndios, Wajdi Mouawad

36. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, Daniel Kahneman

37. As Correções, Jonathan Franzen

38. O Adversário, Emmanuel Carrère

39. A Marca Humana, Philip Roth

40. Canadá, Richard Ford

41. Elizabeth Costello, J. M. Coetzee

42. Terror e Utopia, Karl Schlögel

43. Lectura Fácil, Cristina Morales

44. Las Poetas Visitan a Andrea del Sarto, Juana Bignozzi

45. Ordesa, Manuel Vilas

46. Distância de Resgate, Samanta Schweblin

47. La Noche de los Tiempos, Antonio Muñoz Molina

48. Teoria King Kong, Virginie Despentes

49. The Blazing World, Siri Husvedt

50. Os Testamentos, Margaret Atwood

Do 51 ao 100 (por ordem alfabética do sobrenome do escritor)

51. Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie

52. Diccionario de autores latinoamericanos, César Aira

53. Experience, Martin Amis

54. Pátria, Fernando Aramburu

55. A Worldly Country: New Poems, John Ashbery

56. Fun Home, Alison Bechdel

57. Gênio: os 100 autores mais criativos da história da literatura, Harold Bloom

58. Vida precária, Judith Butler

59. El día del Watusi, Francisco Casavella

60. Reveries of the Wild Woman: Primal Scenes, Hélène Cixous

61. Homem lento, J. M. Coetzee

62. A contraluz, Rachel Cusk

63. A fantástica vida breve de Óscar Wao, Junot Díaz

64. Jamais o fogo nunca, Diamela Eltit

65. El olvido que seremos, Héctor Abad Faciolince

66. Un ángulo me basta, Juan Antonio González Iglesias

67. The Swerve, Stephen Greenblatt

68. O tecido do cosmo, Brian Greene

69. Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã, Yuval Noah Harari

70. Trabajos del reino, Yuri Herrera

71. Submissão, Michel Houellebecq

72. A possibilidade de uma ilha, Michel Houellebecq

73. A Doutrina Do Choque, Naomi Klein

74. La casa de la fuerza, Angélica Liddell

75. Berta Isla, Javier Marías

76. Asterios Polyp, David Mazzucchelli

77. Necropolítica, Achille Mbembe

78. C, Tom McCarthy

79. Aqui, Richard McGuire

80. Tudo o que Eu Tenho Trago Comigo, Herta Müller

81. A Fugitiva, Alice Munro

82. Suite francesa, Irène Némirovsky

83. Faithless: Tales of Transgression, Joyce Carol Oates

84. Stag’s Leap: Poems, Sharon Olds

85. O Capital no Século XXI, Thomas Piketty

86. Un apartamento en Urano, Paul B. Preciado

87. Diccionario sánscrito-español. Mitología, filosofía y yoga, Òscar Pujol

88. Retaguardia roja, Fernando del Rey

89. Complô contra a América, Philip Roth

90. Harry Potter e o enigma do Príncipe, J. K. Rowling

91. A última noite, James Salter

92. Clavícula, Marta Sanz

93. O Artífice, Richard Sennett

94. La estupidez, Rafael Spregelburd

95. A poesia do pensamento, George Steiner

96. O Preço da Desigualdade, Joseph Stiglitz

97. Os Vagantes, Olga Tokarczuk

98. Rien ne s’oppose à la nuit, Delphine de Vigan

99. Consider the Lobster, David Foster Wallace

100. Building Stories, Chris Ware

Iza: “Se eu estiver no horário nobre da TV, mesmo calada, já tô dizendo muito”

Mais informações

Aos 29 anos, ela se estabelece como símbolo de uma geração na cena do pop. Recentemente, tocou no Rock in Rio e Lollapalooza, além de ter sido escolhida como jurada técnica do último The Voice Brasil, a edição de maior audiência do programa global. Antes de estourar, Iza criou um canal no Youtube em que publicava versões de artistas como Beyoncé. Os vídeos repercutiram e, em 2016, chamaram a atenção de uma gravadora. No ano seguinte, lançou seu primeiro álbum. Em 2019, além dos grandes festivais, veio o convite da Disney para dublar Nala no filme Rei Leão. Foi recomendada pela própria Beyoncé, quem havia dublado a mesma personagem na edição em inglês.

Tal qual a estrela norte-americana, Iza faz questão de imprimir em seus trabalhos a marca da cultura negra. Clipes e shows estão repletos de cabelos black power, atores e bailarinos negros e referências ao universo afrobrasileiro. “Isso sempre foi natural para mim. A intenção é fazer à beça, até as pessoas pararem de reparar que só têm negros nos meus clipes”, explica a cantora. “A gente está acostumado a não ver negros em determinados lugares. Ainda somos a exceção nos elencos de clipes, novelas e filmes. Mas isso não é normal, porque somos maioria no país. E muitas vezes, quando aparece, o negro acaba estereotipado. Ou você é a empregada ou o vizinho engraçado ou a mulher gostosa, o bandido… Definitivamente, nós somos muito mais que isso.”

As narrativas dos clipes evitam retratar a vida periférica de forma degradada, sem, no entanto, mascarar a realidade. Em Dona de Mim, mulheres reais encenam seus dramas, como uma mãe que cria o filho sozinha e uma professora de escola pública que protege os alunos durante um tiroteio. “Quero que as mulheres se sintam confiantes e empoderadas para ser o que realmente são. A representatividade ensina que qualquer pessoa pode estar onde quiser, que cada um é parte de alguma coisa”, diz, lembrando que, quando era criança, não se enxergava nos rostos majoritariamente brancos do pop – o que contribuiu para que demorasse a ganhar confiança de que poderia se tornar cantora. “A música é o que eu mais amo fazer, o que paga minhas contas e realiza meus sonhos. Mas sei a infância que eu tive, e como era necessário me ver nos lugares. Se as pessoas se sentem representadas pelo que eu faço é sinal de que estou no caminho certo.”

Além de tocar em grandes festivais, Iza estrelou o The Voice Brasil este ano.Mila Maluhy (Divulgação)

Embora de forma mais sutil, as letras das músicas também carregam mensagens empoderadoras que valorizam a herança africana. Em Ginga, com batida de capoeira, Iza prega “fé na sua mandinga” com a mesma energia que abre os shows ouvindo o histórico discurso de Martin Luther King antes de cantar o reggae Pesadão – momento em que ela e todos os bailarinos erguem os braços com o punho cerrado. “Ser artista significa lidar com questões sociais”, afirma. “Eu falo sobre namoro, traição, sexo, futebol, mas não posso ignorar temas mais sensíveis. Para mim é fundamental falar sobre as coisas que importam. Tenho sido muito feliz com essa forma de trabalhar.”

Iza não rechaça o teor político de suas produções musicais, mas evita se posicionar como militante de uma causa. Consciente do que representa como mulher negra bem-sucedida, sua pretensão nesse estágio da carreira é seguir ocupando espaços até então restritos aos brancos. “As pessoas me veem em lugares onde não viam tantos negros e sempre perguntam: ‘Ah, você é militante?’. Eu não preciso ficar falando o tempo inteiro sobre as coisas. Se eu estiver no horário nobre da TV, mesmo calada, já tô dizendo muito.”

Voz ativa contra o discurso meritocrático

Buscar uma professora de escola pública e periférica para o clipe Dona de Mim foi a maneira que Iza encontrou para homenagear a mãe Isabel, que se dedica a dar aulas de música e artes. Ela se recorda das inúmeras vezes que a mãe se atrasava ao voltar para casa devido aos tiroteios nas imediações da escola ou dos alunos que, de tão acostumados aos confrontos na favela, sabiam identificar as armas somente pelo barulho dos tiros. Por conta da atividade da mãe, Iza estudou como bolsista em colégios particulares do Rio de Janeiro. Pelo bom desempenho no ENEM, a cantora nascida em Olaria, subúrbio carioca, ganhou bolsa integral no curso de publicidade da PUC. “Minha vida é o que é hoje por causa do esforço dos meus pais em me dar uma educação de qualidade.”

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A convivência em ambientes mais elitizados, com poucos negros ao redor, fez com que Iza logo sentisse na pele a indiscrição do preconceito racial. “Quem é negro se percebe como tal antes mesmo de começar a se questionar sobre o racismo. As pessoas avisam pra você. Eu me percebi negra porque me avisaram. Mas que bom. Porque essa é a parte que eu mais gosto em mim”, conta, justificando a postura combativa contra discriminação. “Tem gente que diz: ‘Por que vocês não tentam esquecer isso [o racismo]?’. Ia ser incrível se todo mundo também esquecesse. Na verdade, essa é a ideia: que um dia ninguém mais precise falar desse problema.”

Desde cedo, recebeu em casa a orientação de não se calar ao ser discriminada. “Meus pais nunca me ensinaram a conviver pacificamente com o racismo. Pelo contrário. Me ensinaram a sempre me levantar contra o preconceito. Se eu sofresse racismo na escola sete vezes, minha mãe ia sete vezes falar com a diretora. A gente jamais pode deixar passar. Temos que apontar o dedo para o que está errado. Minha mãe ainda me ensinou a enxergar o racismo como ignorância. Quem fala que racismo é ‘mimimi’, de alguma forma, também é vítima da própria sociedade.”

Por ter tido acesso ao sistema privado de educação, Iza reconhece um privilégio que não contemplou muitos de seus amigos do subúrbio. Por isso se contrapõe aos discursos que apregoam o conceito de sucesso por merecimento. “É complicado falar de meritocracia em uma sociedade que nem reconhece os movimentos abolicionistas da época em que a princesa Isabel assinou a abolição. Eu aprendi na escola que a escravidão acabou no momento da assinatura. Parece que a princesa libertou os escravos, quando, na verdade, o que aconteceu foi uma longa batalha travada por lideranças negras. Como é que você é livre sem condição de estudo, moradia e emprego? A gente vive esse reflexo até hoje. Só vamos poder falar em mérito no dia em que zerar o game, quando tiver aqui, ó [gesticula com as mãos na altura do ombro], todo mundo no mesmo patamar.”

Iza revela sua paixão pelo Vasco. Renato Pizzutto

Seus méritos como cantora, no entanto, começam a ser reconhecidos além das fronteiras do Brasil. No início de novembro, Iza lançou a música Evapora, gravada em parceria com a americana Ciara. Ela se mostra reticente em traçar projeções para uma carreira internacional, apesar de dizer que, assim como já interpretou em inglês, “adoraria gravar algo em espanhol”. O canal no Youtube que iniciou como amadora acumula quase 3 milhões de inscritos e mais de meio bilhão de visualizações. Mas, em vez de se guiar pelo número de seguidores, a artista descoberta na internet prefere enaltecer métricas semelhantes à indicação a melhor videoclipe com mensagem social, ao lado de nomes como Criolo e Emicida.

“Não vou ser hipócrita de dizer que eu não me importo com views e streaming. Eu gosto de bater top 1 no Youtube, fico muito feliz de ver os fãs consumindo minha música. Mas não pauto a carreira em torno de rede social, que é coisa passageira. E eu quero cantar pra sempre.”

“Vascaiza”, torcedora que joga junto

Acostumada a quebrar a internet com lançamentos de novos clipes e canções, Iza se espantou com o aumento repentino de seguidores depois de revelar seu clube do coração. “Como meu pai e meu avô são vascaínos, eu sou Vasco desde muito pequenininha. Comecei sem opção, mas continuei por paixão”, conta a cantora, que já frequentou o estádio de São Januário, além de Maracanã e Engenhão, para acompanhar jogos do time.

Iza exalta o passado do Vasco, que, em sua origem, se tornou referência após divulgar um manifesto em defesa de jogadores negros e pobres, encarado pelo clube como um marco a favor da igualdade racial no esporte. “O fato de ter sido pioneiro em colocar negros para jogar, sem pó de arroz na cara, só fez eu me sentir mais vascaína. A história do clube é muito bonita. Isso tinha que estar em todas as nossas camisas. Todo mundo precisa saber da atitude louvável do Vasco para enfrentar o racismo naquela época.”

Apesar dos ídolos negros que marcam sua história nos gramados e de ter um vice-presidente negro (Elói Ferreira), a composição de dirigentes e conselheiros ainda não corresponde ao discurso de igualdade racial pregado pelo Vasco. Para Iza, o cenário reforça como a discriminação se manifesta na sociedade brasileira. “Não só no futebol, mas em vários outros âmbitos profissionais, é muito raro, infelizmente, ver pessoas negras em cargos de decisão. Diretores, roteiristas, presidentes… É um reflexo do racismo estrutural que a gente vive.”

Logo após tomar conhecimento do apreço da cantora pelo time, o Vasco presenteou Iza com uma camisa personalizada e entrou em contato para saber de seu interesse sobre possíveis participações em campanhas de marketing do clube. Ela brinca que, diante da convocação, não descarta nem mesmo calçar as chuteiras. “Estou muito animada e à disposição do Vasco. Até pra jogar no time, se eles quiserem.”

Fonte: EL País – Brasil

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