Todo ano, o momento mais esperado do Oscar é o finalzinho da cerimônia, quando o público fica sabendo quem ganhou a estatueta de melhor diretor, atriz, ator e, é claro, melhor filme. Mas em 2020, os brasileiros estão vidrados em outro prêmio: melhor documentário (seja torcendo a favor, seja torcendo contra).

Democracia em Vertigem é o primeiro documentário exclusivamente brasileiro a ser indicado ao Oscar. Todos os anteriores foram coproduções entre o Brasil e outros países. O filme de Petra Costa será a primeira produção brasileira a ganhar um Oscar. Mas… é pouco provável que isso aconteça.

A concorrência é forte. Indústria Americana ganhou no Sundance, o mais tradicional dos festivais independentes – e é produzido pelo casal Obama (ou seja: como a Academia detesta Trump, dar a vitória a essa produção seria uma bela provocação ao atual presidente). Além disso, foi indicado em outros 57 prêmios de cinema, contando o Oscar. Venceu 16.

Para Sama, que mostra a guerra da Síria pelos olhos de uma menina, talvez seja um concorrente ainda mais pesado. Foi indicado a 98 prêmios. Venceu metade, incluindo o BAFTA (o “Oscar Britânico) e o Festival de Cannes, o segundo prêmio mais importante do cinema mundial, atrás apenas do próprio Oscar.

Democracia em Vertigem recebeu relativamente poucas indicações a outros prêmios (12). E só ganhou um, da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Ser indicado ao Oscar já é uma vitória, naturalmente. Afinal, contando todas as categorias, apenas oito filmes brasileiros foram indicados desde o início da premiação. Mesmo assim, o Brasil está competindo com gente grande. Confira abaixo quem são os quatro concorrentes de peso.

Indústria americana

59 indicações a prêmios de cinema

16 vitórias

Assim como Democracia em Vertigem, é uma produção da Netflix que aborda questões políticas. Indústria Americana também 

É o filme de estreia da produtora de Michelle e Barack Obama, a Higher Ground Productions. O documentário é sobre uma empresa chinesa que ocupa uma antiga fábrica da General Motors, no estado de Ohio, gerando mais de dois mil empregos para americanos, e também para chineses. Ele aborda o choque cultural entre os dois países e as dificuldades de seguir o “sonho americano” quando você faz parte da classe trabalhadora dos EUA.

Não é difícil adivinhar por que ele é o favorito. O Oscar tem um histórico de bem protecionista, além de premiar produções que falem sobre o contexto e a história dos Estados Unidos – tanto que nenhum filme de língua estrangeira jamais ganhou o Oscar de Melhor Filme (boa sorte, Parasita). Além disso, Indústria Americana venceu o prêmio de Melhor Documentário pelo Sindicato de Diretores – quem vence ali costuma ganhar o Oscar.

Para Sama

98 indicações a prêmios de cinema

59 vitórias

Para Sama é o documentário da lista que mais levou prêmios. Foram 59 vitórias no total, incluindo o melhor documentário do BAFTA, a Associação Britânica de Artes do Cinema e Televisão, e de Cannes. Ele acompanha a história de uma estudante na revolta de Alepo, durante a Guerra da Síria.

O filme tem uma grande característica em comum com Democracia em Vertigem: os dois são contados em primeira pessoa, focando na experiência pessoal das diretoras. O documentário sírio começou a ser filmado em 2012, quando a diretora Waad Al-Kateab estudava marketing na Universidade de Aleppo.

O longa acompanha Al-Kateab durante cinco anos. Nesse tempo, ela se apaixona, se casa e tem uma filha. O filme mescla cenas íntimas e cotidianas com a luta pela sobrevivência na guerra. Mais um dos grandes cotados a Melhor Documentário.

The Cave

28 indicações a prêmios de cinema

11 vitórias

A produção da National Geographic também aborda a Guerra na Síria, mas com um olhar diferente. Ele trata do cotidiano de um hospital subterrâneo improvisado nos escombros da região de Ghouta, próxima a Damasco. 

O documentário foca na médica Amani Ballour e suas colegas Samaher e Alaa. Além de tratar dos feridos e da situação de guerra, o filme também aborda relações de poder e o direito das mulheres de exercerem seu trabalho em uma sociedade patriarcal.

Ele não está tão bem cotado quanto os outros, mas também levou prêmios importantes de cinema, como a categoria de melhor diretor do Critics’ Choice Documentary Awards.

Honeyland

79 indicações a prêmios de cinema

32 vitórias

De todos os indicados, Honeyland é o único que não aborda política diretamente. A história é bem peculiar: uma das últimas caçadoras de abelhas (sim, caçadora) da Europa tenta preservar o ecossistema dos insetos quando uma segunda família de apicultores decide ocupar sua região.

A ideia dos diretores era fazer um documentário sobre a conservação de um rio, mas o foco mudou totalmente quando eles conheceram Hatige Muratove, a caçadora de abelhas. Não é exatamente uma “caça. Trata-se da coleta de favos de mel em ambiente selvagem, uma atividade que ainda persiste no leste europeu (ele colhem só pedaços do favos, para não matar sua galinha dos ovos de ouro).

Tudo se passa no interior da Macedônia – um país pobre de uma região pobre da parte mais pobre da Europa, o que tende a puxar a simpatia dos jurados (não tanto quanto a guerra da Síria, mas tende). Além disso, ele fala de outro tema caro à comunidade do cinema: o aquecimento global, e seu papel no declínio da população de abelhas (o que é um fato).

Honeyland tem outro ponto a seu favor. Além de estar concorrendo como Melhor Documentário, o longa também está na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

Democracia em Vertigem

12 indicações a prêmios 

1 vitória

É um dos filmes mais polarizados da história – a cara do momento atual do País. Chico Buarque elogiou o “grande valor histórico da obra”, e não faltam brasileiros que concordem. No outro pólo, temos os que concordam plenamente com Pedro Bial, que chamou o filme de “ficção alucinante e insuportável”.

O documentário, como muito se falou, mostra uma visão pessoal da diretora sobre os acontecimentos que levaram ao impeachment de Dilma Rousseff – e assume-se como tal, sem esconder o pólo do qual faz parte.

A maior polêmica sobre o filme é outra. A revista Piauí descobriu que Petra Costa alterou uma das fotos históricas mostradas na tela. A imagem mostra dois militantes do Partido Comunista estendidos no chão. A foto original contém duas armas, que foram apagadas durante a edição das imagens. A diretora justificou-se dizendo que as armas tinham sido plantadas pela polícia, então a versão fake seria mais “correta” – mas o fato é que faltou avisar isso no próprio documentário.  

Para a tristeza de alguns torcedores de Oscar, e a satisfação de outros, o documentário é o menos cotado desta lista. Se vencer, terá sido uma zebra histórica. Mas, como já dissemos: a indicação por si só já é relevante para qualquer produção, de qualquer país.