Até quando Elle Fanning poderá interpretar uma juvenil? Não sabemos. Mas com 21 anos, ela ainda está muito suasório, ou melhor, atuando maravilhosamente muito uma vez que uma juvenil em “Por Lugares Incríveis”, quarto longa dirigido por Brett Haley. A diferença não é tão pequena uma vez que parece nesse período da vida, o que explica o espanto de sua presença cá em confrontação com “Um Dia de Chuva em Novidade York”, de Woody Allen, mesmo quando lembramos que nos filmes de Allen os personagens tendem a ser mais adultos. Vemos seu trabalho se desenvolver com a força habitual nos dois filmes, e de maneira distinta, e isso é o que importa.

“Por Lugares Incríveis” é a adaptação cinematográfica do elogiado livro de Jennifer Niven, lançado em 2015. Uma vez que o livro, o filme, escrito pela própria Niven em parceria com Liz Hannah, também correria o risco de ser exclusivamente uma obra de autoajuda com o verniz estético da Netflix, não fosse a delicadeza com que a direção de Haley trata o tema e a coragem de tomar rumos nem sempre bem-vindos para um público mais sensível.

Elle Fanning, obviamente, brilha mais uma vez, e sabia que poderia fulgir, uma vez que ela é uma das produtoras, revelando-se uma força e tanto nessa posição, equiparável, talvez, à de Drew Barrymore no primórdio dos anos 2000. Fanning interpreta Violet Markey, juvenil que não consegue se restaurar da morte eventual de sua mana mais velha. Até que conhece Theodore Finch (Justice Smith, num tom muito ajustado), espargido no escola uma vez que “freak” (anormalidade), por não corresponder ao que se espera de um juvenil. Finch tem a capacidade de despertar Violet (Ultraviolet, uma vez que ele a labareda), mas seu problema parece mais difícil de ser solucionado.

Dentro da estética elegante-quase-acadêmica da maior secção das boas produções da Netflix (as ruins são só acadêmicas, ou nem conseguem chegar a esse status), Brett Haley mostra talento em algumas sequências, embora seja dependente da química de seus atores e atrizes. Felizmente, todos estão muito muito, numa ótima escolha de elenco, e o roteiro tem uma costura supra da média das produções da empresa (quase sempre meio desleixadas nesse paisagem).

Talvez tudo se resuma a duas palavras mágicas: romance juvenil. Mas mesmo dentro desse registro é necessário uma direção firme, sem ser pesada, justa e sensível sem ser sentimental. Haley passou no teste, graças à matéria-prima de Jennifer Niven e ao talento incrível da jovem Elle Fanning.

* Sérgio Telheiro é crítico e professor de cinema

Fonte: Olhar Digital