Morte da lenda da bateria foi anunciada pela família nesta sexta-feira (10); Peart tinha 67 anos. Neil Peart em show do Rush na arena Grand Garden, em Las Vegas, no EUA, em 2002
REUTERS/Ethan Mille
“Tocar um show de 3 horas do Rush é como correr maratonas enquanto você resolve equações.” Neil Peart define assim o jeito como executava sua música. A analogia é boa, mas talvez mecânica demais para o que é o estilo Peart. Suas passagens de bateria envolvem noções de ritmo sofisticadas e complexas, mas o músico estava longe de soar como máquina. Seu toque tinha algo especial, que ajudou o Rush a ter uma carreira de quase 50 anos e inspirou milhões de fãs mundo afora. 
Ele morreu no último dia 7, mas o anúncio feito pela família só ocorreu na última sexta (10). O músico tinha um estilo discreto, adjetivo não muito comum entre indivíduos pertencentes a qualquer categoria “melhor de todos os tempos” (aliás, maior que John Bonham? Que Keith Moon do Who, sua inspiração? Uma discussão que deve animar os próximos dias). 
Peart inspirava estudiosos. Nerds. Chegou a ler 3 livros por semana. Não é surpresa que tenha se tornado o letrista oficial da banda. Os temas escritos por ele e cantados por Geddy Lee versavam sobre princípios filosóficos, livre arbítrio, aleatoriedade da vida, ficção científica, luta contra o totalitarismo. 
Uma conversa pouco rock and roll? Os fãs discordam. Mas, sim, saem os temas mais típicos do rock e entram versos inspirados em um livro de Mark Twain, escritor do século 19: “Tom Sawyer”, que divertiu Peart por ser conhecida no Brasil como “a música do MacGyver”, da série “Profissão: Perigo”, tinha estrofes de sofisticação maior que a média. 
“No, his mind is not for rent
To any god or government
Always hopeful, yet discontent
He knows changes aren’t permanent
But change is” 
Tradução:
“Não, sua mente não está aberta para negócios 
Com qualquer deus ou governo 
Sempre esperançoso, ainda que descontente 
Ele sabe que mudanças não são permanentes 
Mas a mudança é” 
As inclinações políticas de Peart são sempre um tema de discussão entre os fãs de Rush. Há a conhecida admiração do baterista pela obra da escritora conservadora Ayn Rand, embora tenha se distanciado da aceitação total das ideias dela nos últimos anos. Por muitas vezes, Peart pende para um lado mais Thoreau, o escritor anarquista-individualista que defendia lutar com todas as unhas para evitar a interferência do estado em suas vidas.
A crítica musical, principalmente nos anos 1980, via tudo isso e descrevia o Rush como “chato”, “pretensioso”, “enjoativo”.
A partir dos anos 2000, a maré começou a mudar (para os nerds também, aliás) e fãs famosos e descolados como o Foo Fighters Dave Grohl, Trent Reznor do Nine Inch Nails e o apresentador Stephen Colbert declararam sua admiração. Até na cultura pop – seja na comédia de bromance “Eu Te Amo, Cara” (2009) com Paul Rudd e Jason Segel ou na ácida animação “Family Guy” – o Rush já era referência. 
Os fãs do power trio canadense se sentiram vingados. De repente, o Rush era uma das raras bandas com universo particular e fandom próprio. 
De repente, até o “air drum” tão associado a Neil Peart e ao Rush foi legitimado. Sim, a bateria invisível de mãos soltas, um equivalente percursivo do air guitar que, vamos combinar, não proporciona o momento mais charmoso de uma pessoa. Mas a sensação de viver por alguns instantes Neil Peart – sem medo de ser feliz ou ridículo –  é irresistível. Como todo bom nerd sabe, é só ninguém ver que a mágica acontece. 

Fonte: G1

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