“Segunda Chamada” estreia nesta terça (8) com Deborah Bloch, como Lucia, e Paulo Gorgulho, como Jaci
Globo/Mauricio Fidalgo
Em 1991 o pesquisador Sergio Costa Ribeiro escreveu um artigo intitulado “A escola do Brasil é uma comédia…” no qual analisou o programa de Chico Anísio na TV Globo, “A escolinha do professor Raimundo”.
Fazendo todas as ressalvas quanto ao gênero humorístico, mas afirmando que para ser engraçada a piada deve ter um pé na realidade que exagera, não demasiadamente, mas ao ponto de não cair no ridículo, Sergio Costa Ribeiro viu no programa televisivo uma descrição da escola do Brasil.
“A escolinha do professor Raimundo”, segundo Sergio Costa Ribeiro, tinha enorme sucesso porque não exagerava demais a realidade, embora, é claro, fosse uma caricatura. O professor não ensina nada, só cobra e dá nota. Na avaliação dos alunos exige que eles memorizem e quando erram, o professor deixa passar o erro e simplesmente dá nota baixa. E por aí vai o pesquisador descrevendo o programa de Chico Anísio e as práticas pedagógicas da escola brasileira.
Quase trinta anos depois há na televisão brasileira muito mais interesse em apresentar a escola não pelo humor, mas também como assunto sério como em “Segunda chamada”, série da Globo gravada em São Paulo, em coprodução com a O2 Filmes.
Escrita por Carla Faour e Julia Spadaccini com direção artística de Joana Jabace. Protagonizada por Debora Bloch e Paulo Gorgulho e um elenco de primeira, a história focaliza uma escola noturna fictícia cujo nome homenageia a grande escritora negra Carolina Maria de Jesus.
Sem a mínima infraestrutura e com alunos que voltaram a estudar depois de terem abandonado os bancos escolares a escola é cenário no qual cinco professores se dedicam ao extremo, mobilizados apenas pela crença de que as pessoas devem ter uma segunda chance. Movidos pela vocação dedicam-se aos alunos e se envolvem com os seus dramas.
A música tema da abertura é a magistral “Comportamento Geral” de Gonzaguinha interpretada por Elza Soares e leva o espectador a se envolver com a história de cada personagem. Os estudantes são o resumo de um dos dramas da escola do Brasil, pois fazem parte do exército de cidadãos brasileiros que abandonam a escola pela nossa persistente pedagogia da repetência. A vida dos professores não é menos difícil do que a de seus alunos.
O que mudou e o que permaneceu a mesma coisa nesses trinta anos?
Os professores nesta trama, diferentemente da descrição do programa de Chico Anísio, tentam dar aulas, mas a base é “o cuspe e giz”, como se diz, apesar de o professor de artes haver reformado uma sala de depósito em um teatro, para introduzir uma pedagogia diferente na qual envolve os estudantes em espetáculos dirigidos e encenados por eles.
A ênfase de toda a história é a de que os estudantes pobres e abandonados – um travesti, uma ex-detenta, uma senhora idosa, um sem teto, um jovem que vende drogas lícitas e ilícitas, imigrantes que competem com brasileiros pela venda de comida no pátio da escola, um casal religioso que tem conflito com os demais por questões morais, o namoro entre um estudante e seu professor que acaba em tragédia – têm de ser valorizados.
As histórias são histórias de superação. Todos são dramas reais, encontrados em diversas escolas do País, nas quais em muitas delas os professores são dedicadíssimos.
A visão de que o esforço individual pode superar as deficiências originadas pela pobreza, pela necessidade de trabalhar etc., que não aparece no programa humorístico, está presente para explicar a baixa qualidade da educação.
A escola, de fato, não se responsabiliza por seus erros e coloca o peso sobre os ombros dos estudantes quando, de fato, aqueles alunos mais velhos só estão ali porque, como disse Sergio Costa Ribeiro, a pedagogia da repetência produz a evasão de milhares de pessoas que desistem dos estudos depois de anos nas mesmas séries.
No final dos onze episódios que se passam na maior parte do tempo no interior das dependências escolares, o ritual mais importante é descrito: a cerimônia de entrega dos diplomas mostrando o caráter de certificação e a alegria dos que conseguem atingir a meta para ter uma vida melhor, ser alguém, como dizem.
Vale a pena ver esta ótima série para se ter noção do que se fala quando se fala de escola no Brasil. A responsabilidade pelas vitórias e derrotas é dos estudantes e nada é imputado ao sistema pedagógico pelas dificuldades impostas tanto aos mestres quanto aos alunos.

Fonte: G1

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