Nos últimos anos, temos visto várias consequências causadas pelas mudanças climáticas, e um dos grandes agravantes para essas alterações causadas pela humanidade seriam máquinas ligadas aos avanços tecnológicos, em especial os data centers. A projeção é de que os números se tornem ainda mais preocupantes nos próximos anos, e protestos por mais programas verdes e investimentos para tornar os processos menos agressivos ao meio ambiente são cada vez mais frequentes em gigantes como o Google, Amazon, Apple, Facebook, Netflix, entre outras. Agora, um novo estudo promete ainda mais polêmica sobre o assunto.

Chamado “Recalibrando as estimativas globais de uso de energia do data center” (em tradução livre), o documento foi publicado na revista Science pelos pesquisadores Eric Masanet, Arman Shehabi, Nuoa Lei, Sarah Smith e Jonathan Koomey. Eles afirmam que as grandes melhorias na eficiência energética dos servidores mantiveram a demanda sob controle na última década, e que essa otimização deve continuar nos próximos anos. Em outras palavras, a projeção sombria vista em outros levantamentos seria exagerada, de acordo com o relatório.

Os autores alegam que os dados apresentados em muitas pesquisas seriam irregulares, e que os ganhos de eficiência não correspondem à ascensão de setores que consomem muita eletricidade, a exemplo dos de criptomoedas e games online. É inegável que os data centers são famintos e podem representar consumo equivalente ao de uma cidade pequena. Contudo, eles dizem que há uma falha primordial na estimativa para a década de 2020.

Não estariam sendo levadas em consideração melhores tecnologias de refrigeração, maior eficiência de processadores e as mudanças de servidores locais para provedores de serviços baseados na nuvem, que operam os chamados data centers em hiperescala.

Pesquisa usa abordagem diferente da medição de tráfego

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Diferente de outras pesquisas nesse campo, que se baseiam na medição do tráfego IP para estimar a eletricidade do data center, os autores do artigo da Science usaram uma abordagem de baixo para cima, compilando dados sobre vendas de servidores e eficiência de equipamentos. Esse processo resultou em uma conclusão surpreendente: na última década, o uso global de energia de servidores foi quase estável, subindo apenas 6%.

Ao mesmo tempo, as “instâncias de computação” globais de bancos de dados — uma medida de quantos aplicativos estão sendo executados ao mesmo tempo — cresceram 550%. “Queríamos esclarecer o que achamos que os dados estão sugerindo. O uso de energia de data centers aumentou, mas é um aumento muito modesto em comparação ao crescimento da demanda de dados. Esses ganhos de eficácia proporcionaram grandes ganhos globalmente”, explica o principal autor do estudo, Eric Masanet, da Northwestern University, nos Estados Unidos.

Ou seja, ao observar a alta demanda e o consumo, eles concluíram que os bancos de dados conseguiram suprir a necessidade sem causar o impacto esperado. Além disso, a análise sugere que os data centers atuais devem maximizar sua eficiência em potencial a partir de melhorias tecnológicas futuras, que podem acompanhar a próxima duplicação da demanda de usuários.

Mas há controvérsias

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Outros pesquisadores duvidam desse estudo. Anders Andrae, especialista sênior em avaliação do ciclo de vida da Huawei, cujo trabalho projetou que a demanda de energia do data center poderia aumentar, apontou para diferentes dados e estudos que sugerem que o consumo de energia já pode ser maior do que apontam novos relatórios.

Gary Cook, diretor de campanha climática global da Stand.earth, também apontou que as estimativas para as demandas de energia de data centers variam, citando uma falta de transparência entre as empresas que as constroem e operam. Para ele, as estimativas “de baixo para cima”, realizada pelos autores desse levantamento, não levam em consideração a situação de locais onde novas instalações entram online rapidamente.

Além disso, Cook disse que, embora as melhorias de eficiência estejam “definitivamente acontecendo”, essa otimização tende a incentivar um maior uso, efeito que estamos vendo acontecer em áreas como streaming de vídeos e de jogos, além da mineração de criptomoedas. “Parece haver uma desconexão da metodologia deles com o que realmente está acontecendo no mundo. A eficiência (dos servidores) vem impulsionando uma utilização muito maior dos dados”, comenta.

O que fazer, então?

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Para ajudar a manter o impacto climático dos data centers sob controle, os autores sugerem que os governos incentivem a adoção de padrões de eficiência, como o Energy Star, além de investir mais em pesquisas de tecnologias avançadas de computação, armazenamento de dados e refrigeração. Também seria crucial usar energia renovável, com a adoção da eletricidade eólica e solar.

Masanet disse que espera críticas sobre o artigo, mas espera que as reações céticas estimulem mais pesquisas sobre o assunto. “Estamos entrando em uma nova era. Os data centers se tornarão mais importantes e é provável que o uso de energia aumente. E precisamos de melhores pesquisas para monitorar esse setor no futuro”, complementa.

Fonte: OneZero