O terror tem seu próprio tipo de testemunha: quem gosta do gênero (e não é muito exigente) geralmente é capaz de suspender crenças e se divertir com quase qualquer história mais ou menos muito contada. É por isso que esse gênero tem tantas fórmulas que se repetem exaustivamente ao longo dos anos. Às vezes, só queremos ver novas mortes em contextos diferentes (e cá há espaço para questionarmos sobre a banalização da violência, mas esse é um tópico para outro texto).

Os filmes mais comerciais do gênero, no entanto, contentam-se com alguns sustos e evitam distrair muito com o estômago dos fãs, criando uma espécie de versão soft do subgênero splatter (que consiste em ter uma trama voltada para o surgimento de mortes bastante gráficas, repletas de sangue e violência). A Hora da Sua Morte parece encaixar-se nesse subgênero, com um gore bastante suave, daquele tipo que dá uma agonia, mas termina rápido o suficiente para não precisar desviar o olhar.

Uma vez que se fosse um repercussão de Premonição (James Wong, 2000), A Hora da Sua Morte lida com a teoria de que não é verosímil evadir do seu direcção e de que qualquer tentativa de fugir dos seus momentos finais será recompensada com qualquer pena macabro.

Atenção! A partir daqui a sátira pode sofrear spoilers.

Obviedades

Quando falamos de filmes que, querendo ou não, enquadram-se em gêneros específicos com muita perspicuidade, queremos expor que a obra faz uso de fórmulas de roteiro, perfis de personagens, estrutura narrativa e o que mais possa produzir as características necessárias para dar ao testemunha treinado todas as pistas. Isso, embora possa deixar a trama óbvia demais para o palato de algumas pessoas, serve porquê uma traço guia para os fãs de terror: a estrutura pode ser idêntica às de muitos outros filmes, mas o que importa em um splatter, as mortes, essas devem surpreender.

Imagem: Diamond Films

A Hora da Sua Morte é o primeiro longa de Justin Dec, que assina roteiro e direção demonstrando ter muito conhecimento sobre a fórmula aplicada, mas pouca originalidade (ou liberdade para colocar as ideias em prática). A primeira morte demonstra que, assim porquê em Premonição, o homicídio é causado por um pouco completamente sobrenatural e aparentemente onipotente. O recurso é supimpa, pois abre espaço para que as mortes possam ser tão bizarras quanto o desejado, mas dificilmente veremos barreiras sendo forçadas em um filme com apelo mercantil tão grande. Sendo assim, contentamo-nos com a versão soft do gênero.

Com exatamente uma hora e meia de duração, A Hora da Sua Morte tem a estrutura clássica de um roteiro pensado em três atos de meia hora cada: em um primeiro momento a personagem principal toma conhecimento do aplicativo maldito e a primeira viradela acontece quando ela se desespera ao ter uma visão em seu quarto. A segunda secção consiste em tentar livrar-se da maldição: desvendar alguma coisa que não vai funcionar e que conduz os personagens ao terceiro ato. A terceira secção mostra os personagens reunidos porquê família e realmente dispostos a qualquer coisa para driblar a morte.

Imagem: Diamond Films

Tudo isso é bastante previsível, mas a genialidade de um diretor de terror é tornar o previsível novo, porquê fez repetidas vezes a franquia Pânico. Justin Dec infelizmente não atinge esse patamar com seu filme. Para além de uma boa premissa que utiliza fórmulas bastante canônicas, A Hora da Sua Morte desenvolve pouco o que poderia ser muito mais autoral.

Sustos e medos

O término de Courtney (Anne Winters) dá o tom do que está por vir: as mortes serão bastante violentas, a ponto de talvez chocarem, mas serão pouco gráficas. Os recursos que Dec usa para deixar essas sequências mais soft não só tiram o peso gráfico da imagem, mas enfraquecem o filme que, sem um roteiro mais poderoso, se vê com cada vez menos apelo diante do testemunha: mortes em desfoque, coisas que acontecem em meio a sombras demais ou rápido demais (e acompanhadas de jump scares), maquiagem do dedo e CGI

Imagem: Diamond Films

A aparição de elementos em segundo projecto agrega qualidade às sequências que prezam mais o pavor do que o susto: por conhecermos a estrutura narrativa, sabemos que alguém vai morrer, gerando pavor ao ver uma figura semelhante à Morte, porquê se pudéssemos antecipar um sentimento de uma dor futura. Infelizmente, as aparições só tinham sucesso em despertar um pouco mais terrificante quando vistas de longe. Mesmo que vistos por pouco tempo e sob iluminações precárias, as demais aparições eram esteticamente genéricas e pouco convincentes, quase caricaturais.

No limiar da comédia

A maioria dos filmes mais assustadores não contém sequer um conforto cômico e, mesmo quando arriscam na comédia, temos alívios cômicos unicamente, porquê ocorre com o personagem Rod (Lil Rel Howery) em Corra! (Jordan Peele). Filmes B costumam flertar com gostos duvidosos e podem ser ao mesmo tempo engraçados e gore, combinação essa que lhes garante o status de cult. Em filmes medianos, comerciais e esquecíveis a longo prazo, porquê é o caso de A Hora da Sua Morte, a inserção da comédia é um alerta de que o próprio filme não se leva tão a sério, um invitação para que o testemunha seja mais concedente com o que está assistindo.

A Hora da Sua Morte tem diversos diálogos e personagens pouco verossímeis, mas zero é tão claramente cômico porquê o Pe. John (P.J. Byrne). Esse personagem, no entanto, não deve ser subestimado: apesar de caricato, Pe. John é a perfeita encarnação da teoria de um padre que é nerd com sua própria religião, porquê uma versão católica de The Big Bang Theory. Realmente fiquei me perguntando se existem padres que têm esse estereótipo de nerd.

Imagem: Diamond Films

A Hora da Sua Morte é um bom entretenimento para quem está avezado a ver o mesmo filme repetidas vezes e gosta do gênero, ainda que não impressione fãs de terror e tampouco seja isca para o grande público. Não duvido, no entanto, que se Justin Dec conseguir um projeto com maiores liberdades criativas talvez possamos ver um terror de muito mais qualidade.