Durante um evento sobre pagamentos no final de 2019, ouvi de um renomado analista do setor, que no Brasil já existem mais de 500 carteiras digitais lançadas no mercado por incubentes, neo-banks, challenger banks, fintechs, estabelecimentos comerciais e com as mais distintas definições técnicas como closed loop wallet, stored-balance wallet, pass-through wallet, NFC wallets, entre outros.

A quantidade impressionante, pelo menos para mim, de carteiras digitais e a classificação heterogênea obedece diversos aspectos e estratégias, tais como ecossistema de aceitação fechado, carga e recarga de fundos em uma única conta pré-paga, diversas fontes de carga destinada ao mundo on-line, enquanto que outras têm a melhor experiência no mundo físico, etc. A grande maioria oferece, ou em breve oferecerá, produtos e serviços financeiros, além de pagamentos para acelerar o engajamento de seus consumidores. 

Ah! Quase cometo um grande equívoco não mencionando o QR Code, presente em nosso cotidiano de maneira recorrente. Na minha opinião, porém, o QR Code não é um fim em si próprio, é apenas um meio, apenas mais uma interface de aceitação, assim como o NFC, o chip de contato ou a antiga trilha magnética. Em alguns países, essa tecnologia teve avanço mais significativo no segmento de pagamentos, muito por conta da ausência da infraestrutura de aceitação NFC, em outros lugares nem sequer chegou a ser uma opção relevante. 

Voltando ao tema central, não é difícil entender por que as carteiras digitais vêm assumindo cada vez mais o papel de protagonismo na indústria de pagamentos. Na medida que se transformam em grandes ferramentas de aquisição de novos clientes – especialmente aqueles que estão no chamado “mar aberto”, são novos canais de geração de volume.

Somos constantemente questionados sobre qual o modelo vencedor, se é que existe algum. Talvez, o mais difícil ainda seja justificar e explicar cada uma das variações das carteiras acima descritas, pois, no final, nós não estamos inseridos no mercado de carteiras, mas sim de pagamentos e transações. Me explico, por maior que seja o crescimento das carteiras digitais, nossa atenção deve estar primariamente centrada na célula principal: a credencial de pagamento, que trata-se da composição do número do cartão, a data de validade e o “super secreto” código de segurança, que será tokenizado para fins de on-board digital. A credencial pode, e na verdade deve, estar inserida em todas as possíveis mídias de pagamento, como cartões, celular, pulseira, relógio, wearables, plataformas automotivas, diretórios de P2P e P2M etc. O consumidor deve ter o direito e a palavra final quanto à escolha e o formato de como pagar. Afinal, essa é a era do empoderamento do consumidor.

Vejamos o que aconteceu, como exemplo, com um dos maiores bancos do mundo, o JP Morgan Chase, que após lançar sua carteira digital em 2015, anunciou em meados do ano passado que encerrará a Chase Pay no começo desse ano. Isso significa que eles decidiram sair dessa arena? Não, apenas readequaram sua proposta de valor para atender aos consumidores por meio da aceleração de suas credenciais nos estabelecimentos comerciais parceiros, deixando de lado o pagamento NFC por meio de um único e exclusivo formato.    

Como nos outros artigos nesta coluna, tenho deixado sempre uma provocação aos leitores: o mercado precisa de mais carteiras digitais ou a indústria de pagamentos precisa de mais credenciais de pagamento que os consumidores possam indiscriminadamente usar?