Salta aos olhos do paulistano no Rio –eu, no caso– a abundante oferta de galetos. As biroscas galeteiras estão por toda parte. É comida barata e gostosa para acompanhar o chope gelado.

São Paulo desconhece o galeto à carioca. A cidade vende galeto e entrega frango. Mas galeto não é frango na brasa. É um bicho mais jovem. É o galináceo pubescente, que apenas deixou de ser um pinto grande para se tornar um frango pequeno.

Uma parcela da humanidade tem fetiche por comer filhotes.

A palavra “vitelo” é um eufemismo para “bezerro”. Cordeiro é um carneiro criança. Leitão é o porquinho que o Lobo Mau perseguia. Cabrito é o bebê do sr. Bode e da sra. Cabra.

Outra parcela da humanidade tem horror ao infanticídio animal. Come carne de boi, mas condena a morte do vitelo.

Eu fico entre os dois extremos. Não tenho nenhuma predileção pela carne de bichos jovens –troco facilmente a maciez pelo sabor do animal maduro. Mas como galeto sem dilema existencial. Matar um frango ou um pinto dá na mesma. A vida das galinhas de granja é sempre um lixo.

Só que não era disso que eu queria falar. Vou tentar começar outra vez.

Meu quarto em Ipanema tem vista para o oceano e as ilhas Cagarras –adoro esse nome. Estou a miseráveis duas quadras da praia. Nunca morei em outro lugar tão bonito.

Tenho um supermercado na porta de casa e todos os serviços imagináveis no meu quarteirão –de barbeiro gourmet a loja de penhores. Tudo fica a poucos passos daqui. A gente vai tropeçando nos moradores de rua, o que pode incomodar de início. Depois, a gente se acostuma. Difícil é se acostumar ao cheiro da creolina que os comerciantes usam para lavar a calçada em que os mendigos dormem.

Ao entrar no banco, ontem cedo, uma voz masculina me interpelou na porta automática: “Senhor!”. “Danou-se”, eu pensei. “Preciso voltar para casa e trocar os chinelos por sapatos.” Mas a voz continuou: “Seja muito bem-vindo.” Ah, se aquele vigia pudesse ver o tamanho do buraco no meu saldo! Ele não me desejaria um ótimo fim-de-semana na saída.

É fácil demais ser um homem branco em Ipanema.  Posso, inclusive, escolher entre o galeto na brasa e o açougue vegano da praça General Osório. Não entendi muito bem o que é um açougue vegano, só espiei lá dentro e vi que a coxinha é feita de jaca.

É fácil demais esquecer que aqui ao lado, onde a cidade é feia e imunda, cinco meninos e uma menina foram assassinados pelo aparato estatal.

Para as pessoas do açougue vegano, talvez o extermínio dos galetos preocupe mais do que a tragédia de Dyogo, Gabriel, Lucas, Tiago, Henrico e Margareth.

Com o devido respeito aos frangos muito jovens, há infanticídios bem piores. O duro é enxergá-los daqui, com esse marzão azul para me distrair.

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Fonte: Folha de S.Paulo – Turismo

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